NOVA YORK — Uma odisseia é uma jornada de regresso a casa, mas a peregrinação até o cinema AMC Lincoln Square, no Upper West Side de Manhattan, para ver o grande sucesso de bilheteria deste mês nas primeiras horas de um domingo, esteve mais para um ato de fé. Os cinéfilos eram movidos pela necessidade de ver a adaptação do poema épico de Homero, A Odisseia, exatamente como o diretor Christopher Nolan planejou: em IMAX 70 mm, um formato otimizado tanto para detalhes quanto para escala. O cinema no quarto andar do AMC Lincoln Square tem a maior tela IMAX dos Estados Unidos e atendeu à explosão na demanda oferecendo sessões às 2h e às 6h da manhã.
Sessões de Madrugada Esgotadas
Há ingressos de sobra para ver A Odisseia no formato padrão por toda a cidade — o filme arrecadou US$ 124,5 milhões nas bilheterias norte-americanas em seu primeiro fim de semana. No entanto, as sessões em IMAX 70 mm estão praticamente esgotadas, razão pela qual cerca de 450 nova-iorquinos se arrastaram até o cinema em um horário em que, normalmente, estariam encerrando a noite. “É com certeza um evento”, disse Ellis Tan, fotógrafo e videomaker que viajou do condado de Westchester.
Dash Suarez, estudante do Manhattan Center for Science and Mathematics, achou que valia a pena. “Não acho que ele abra mão de nada em nenhum aspecto da narrativa”, disse Suarez, que foi à sessão das 2h da manhã acompanhado de cinco amigos de pijama. Dois deles já tinham lido A Odisseia.
Fãs Viajam para Ver o Filme
Amanda Quinonez, que estava sentada na primeira fileira, disse que também já tinha lido A Odisseia — “vezes demais”, segundo suas próprias contas. A primeira vez que Quinonez leu a obra foi no ensino médio, no Texas, mas ela não se lembra de qual tradução. Provavelmente não foi a aclamada tradução de Emily Wilson, chefe do departamento de Estudos Clássicos da Universidade da Pensilvânia e a primeira mulher a publicar uma tradução completa do poema grego antigo para o inglês. Dizem que Nolan se baseou na versão dela, para a consternação de conservadores que criticaram a tradução e algumas escolhas de elenco do diretor, acusando-o de “lacração”. Nada disso parecia ter qualquer relevância para o público jovem e diversificado que chegou ao cruzamento da Broadway com a West 68th Street no final da noite de sábado para a sessão de domingo.
Os assentos para a sala IMAX do Lincoln Square estavam tão concorridos que muitos frequentadores não se importaram em garantir ingressos para o filme de quase três horas de duração no turno da madrugada. (Na internet, ingressos estavam sendo revendidos por centenas de dólares.) Na verdade, alguns até encararam isso como um motivo para fazer algo um pouco fora da rotina. “Sinto que fazemos parte de algo meio exclusivo”, disse Quinonez.
Tradução de Emily Wilson Gera Debate
Até a escassez se revelou empolgante. “Estou feliz por ter sido uma luta conseguir os ingressos”, disse Shreyas Kotla, um estudante universitário que viajou de Washington D.C. a Manhattan especificamente para ver A Odisseia. Kotla se preparou tirando uma soneca mais cedo naquele dia. Os vídeos curtos ainda podem ser o fim do cinema. Mas, para os espectadores que abriram mão de uma noite de sono para ver o arrogante pretendente Antínoo (Robert Pattinson) ter o que merecia, a sessão lotada foi a prova de que a sala de cinema é uma experiência que nenhum notebook ou pipoca de micro-ondas consegue replicar. “Quando dizem que o cinema está morrendo — não, não está”, disse Kotla.
Dennis Corrales chegou para a sessão das 6h da manhã com um café gelado na mão. Ele vestia uma camiseta em homenagem ao fenômeno “Barbenheimer” — o lançamento simultâneo, em 2023, de dois sucessos de bilheteria muito diferentes: Barbie, de Greta Gerwig (sobre a boneca), e Oppenheimer, de Nolan (sobre o físico nuclear). Corrales também assistiu a Oppenheimer no AMC Lincoln Square. “Os ingressos não eram tão disputados na época porque ninguém conhecia direito esse formato”, explicou, referindo-se à crescente conscientização do público sobre o formato IMAX 70 mm naquele período. Oppenheimer foi amplamente aclamado como uma obra-prima, mas A Odisseia indiscutivelmente superou o drama nuclear em espetáculo e ambição, sendo o primeiro longa-metragem totalmente filmado em IMAX.
Cinema como Experiência Insubstituível
“Agora a procura está insana”, disse Corrales. O AMC informou que continuaria exibindo o filme após a meia-noite até meados de agosto na unidade do Lincoln Square. Mordechai Levovitz, fundador da organização Jewish Queer Youth, chegou ao cinema logo depois das 2h da manhã. Ele esperava conseguir um assento para a sessão esgotada das 6h, caso alguém desistisse no último minuto. Ele foi até o terminal de autoatendimento no saguão deserto do térreo, frustrado com uma interface que parecia mostrar um ingresso disponível, apenas para vê-lo sumir na hora do pagamento. Ele tentou novamente algumas horas depois.
Os mesmos deuses que guiaram Odisseu (Matt Damon) de volta para Ítaca sorriram para Levovitz quando um ingresso para a sessão das 6h subitamente se materializou. Desta vez não houve falha no sistema, nem puxada de tapete. “O filme foi muito mais relevante do que eu pensava”, disse ele, saindo para a manhã fresca e resplandecente após a exibição. “O colapso da civilização, da ética, das instituições, da sociedade como a conhecemos.” Odisseu tinha retornado para casa. E era exatamente para lá que Levovitz estava indo. “Vou dormir”, disse ele.



