A quadrilha junina Remelexo Cearense, fundada há 49 anos na cidade de Barreiras, oeste da Bahia, transformou-se em uma associação cultural que funciona como escola para formar novos talentos na tradição junina. Com dezenas de títulos regionais, o grupo agora foca na transmissão do conhecimento para crianças, garantindo a continuidade da cultura.
Origem ligada à construção da BR e à migração cearense
O presidente da quadrilha, Everton Lucas de Souza, contou ao g1 que a história do grupo se confunde com a da própria família e o desenvolvimento da região. O projeto nasceu no bairro Vila dos Funcionários, a partir da reunião de trabalhadores da construção civil que se instalaram na área durante a construção da rodovia que liga a Bahia a Brasília. "Foi fundada através do quarto Batalhão de Engenharia e Construção que veio da cidade de Crato, no Ceará, para Barreiras para ajudar nessa construção da BR. Aí vieram os meus avós, avós de tios e conhecidos", relembra.
Os pais de Everton e os demais trabalhadores se estabeleceram no bairro que, até hoje, é chamado de Vila dos Funcionários. A localidade, conhecida como um pedacinho do Ceará na Bahia, é considerada patrimônio cultural do município e marca um momento de grande desenvolvimento na região.
Da Remeleixão ao Remelexinho: passagem de bastão para as crianças
Foi pensando na cultura das quadrilhas juninas que a mãe de Everton, Antônia Lucia de Souza, decidiu montar uma quadrilha com outros adultos da cidade. Inicialmente, os encontros aconteciam por intermédio da Igreja Nossa Senhora das Graças, mas a atuação do grupo extrapolou os muros do templo religioso. Desde pequeno, Everton participa das atividades e, assim como a mãe, passou a dançar e amar as quadrilhas juninas.
Após os anos da pandemia de Covid-19, quando o grupo precisou suspender a atuação devido às regras de isolamento social, ele percebeu que a tradição das quadrilhas estava enfraquecida. Com isso, decidiu usar a estrutura e alcance da Remelexo Cearense para semear essa cultura. "A gente permanece viva até hoje graças a essa tradição de passar de pai para filho. Chegou um certo tempo que só tinha [espaço] para adulto, aí o pessoal estava ficando idoso e resolveram criar a Remeleixão. E para os filhos não tinha nenhuma junina, aí com o passar do tempo criaram a Remelexinho Cearense", explica.
40 crianças aprendem gratuitamente e já abrem eventos na região
Atualmente, o grupo atende cerca de 40 crianças com idades entre 6 e 14 anos, que aprendem a dançar durante todo o ano e, no São João, treinam os enredos tradicionais. As aulas gratuitas ocorrem duas vezes por semana na associação. Apesar de ainda competirem oficialmente, as crianças da Remelexinho Cearense já são convidadas para abrir eventos juninos em diversas cidades da região. "A gente está tendo muito convite. Vamos fazer duas apresentações fora da cidade: a abertura do concurso regional de Quadrilhas Juninas aqui do Oeste, organizado pela União de Quadrilhas Juninas. Vai ser em São Desidério, dia 20 de junho. E também vamos fazer outra apresentação em uma cidade próxima daqui, a Angical", conta Everton.
Das roupas usadas nas apresentações às coreografias, todo o trabalho construído na associação é feito com a ajuda da comunidade e patrocinadores locais. Para o presidente da Remelexo Cearense, essa força coletiva e a passagem dos conhecimentos tradicionais para as crianças são caminhos para fortalecer a tradição das quadrilhas na Bahia. "A importância maior do que a gente está fazendo é trazer isso para dentro das crianças. Acho que quem pode manter isso vivo [são elas] — eu sou um exemplo claro disso, minha mãe passou isso para mim e eu estou passando isso para os meus filhos e espero estar passando isso para as crianças da Remelixinho", afirma.
Competição e valorização na Bahia
Conforme a Federação Baiana de Quadrilhas Juninas, em média 100 quadrilhas juninas estão divididas por todo o estado. Neste ano, o XVII Campeonato Estadual de Quadrilhas Juninas reuniu 60 quadrilhas no bairro de Periperi, em Salvador. A Remelexo Cearense não está entre elas, já que o grupo agora está focado na formação das crianças. A competição, considerada uma das maiores do estado, é uma ferramenta essencial para a celebração da tradição, um dos elementos centrais do período em todo o Nordeste. As apresentações foram realizadas até domingo (14), das 10h às 21h, na Praça da Revolução, como parte do calendário junino oficial da capital.



