Dona Onete, a Rainha do Carimbó chamegado, celebra em junho de 2025 dois marcos importantes: seus 87 anos, completados no dia 18, e os 10 anos do álbum 'Banzeiro', que a projetou internacionalmente. Em entrevista ao g1, a cantora, compositora, pesquisadora e professora marajoara revisita sua carreira, iniciada tardiamente aos 72 anos, e fala sobre saúde, novos projetos e artistas que a inspiram.
Uma década de 'Banzeiro'
Lançado em 23 de junho de 2016, 'Banzeiro' alcançou o primeiro lugar da 'World Music Charts Europe' e impulsionou apresentações nos Estados Unidos, México, Europa e Sudeste Asiático. O disco de 12 faixas, cujo título remete à agitação das águas amazônicas, une ritmos como banguê e bolero. "Eu era folclorista, participava de grupos de dança, mas tinha vontade de 'mexer' mais com o Carimbó. Só de ver o nosso ritmo querido em lugares como Rio de Janeiro e São Paulo, que são vitrines, já é um sentimento de dever cumprido", conta Dona Onete.
Em faixas como 'Tipiti' e 'Banzeiro', elementos do cotidiano amazônico ganham dimensão poética. Já em 'Proposta Indecente' e 'No Sabor do Beijo', a ex-professora explora a sensualidade bem-humorada: "O carimbó é como se fosse uma dança entre um beija-flor e uma rosa. Vêm vários beija-flores querendo tirar o néctar dela, mas ela não deixa. Ela se faz de pavulagem", analisa em tom de brincadeira.
Bate-bola com Dona Onete
Em um bate-bola, Dona Onete respondeu a perguntas sobre cheiros, sabores, músicas e memórias que definem a Amazônia e sua trajetória. Para ela, o cheiro que melhor representa a região é o tucupi, "um perfume bem caboclo". O sabor é o açaí, "com farinha ou sem farinha, com açúcar ou sem açúcar". A música que define a Amazônia, além do hino do Pará, é 'Este Rio É Minha Rua', de Fafá de Belém, e 'Sabor Açaí', de Nilson Chaves. Entre os artistas que tem ouvido, destaca Gaby Amarantos, Keila, Nelsinho Rodrigues e Joelma: "Sempre vou valorizar os daqui".
O conselho que a Dona Onete de 87 anos daria àquela professora que guardava composições num caderno em Cachoeira do Arari: "Nunca deixe ninguém te tolher, te fazer se sentir escravizada, ou te impedir de mostrar o que você tem. Espere, que vai dar certo. Agora, se você esperar demais e não se mostrar um pouquinho, ninguém te encontra. Foi o que aconteceu comigo: fui me mostrando um pouquinho e olha no que deu..."
Estado de saúde atual
Em fevereiro de 2025, Dona Onete foi hospitalizada com infecção urinária e reduziu drasticamente o ritmo de trabalho, suspendendo a agenda de shows. Sua última apresentação, já utilizando cadeira de rodas, foi no Festival do Carimbó, em Irituia (PA), em 18 de janeiro. "Estou vivendo um período muito bonito, apesar dos meus problemas de saúde. Mas estou vencendo. Ainda estou de pé", afirma.
Novos projetos
Mesmo com recomendações médicas para reduzir o ritmo, Dona Onete continua criando. "Meus músicos vão voltar a ensaiar. Estou quietinha no meu canto, mas minha cabeça continua fervilhando, fazendo música." Além da carreira musical, ela planeja novos trabalhos ligados à literatura infantil, área que sempre cultivou como professora. "Não quero deixar de fazer as historinhas cantadas. Quero fazer o próximo livro e quero que as crianças aprendam a amar o nosso Pará. Ainda tenho muitas histórias para contar", conclui.



