Há 88 anos, em 28 de julho de 1938, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, Maria Bonita e outros nove integrantes do bando foram mortos durante uma ação da força volante de Alagoas na Grota do Angico, em Sergipe. Quase nove décadas depois, o trajeto percorrido pelos cangaceiros continua atraindo pessoas de diferentes partes do país. Turistas embarcam em Piranhas, no Sertão de Alagoas, atravessam o Velho Chico e seguem por uma trilha de pedras e vegetação da Caatinga até o local onde ocorreu o ataque que marcou o fim do chamado rei do cangaço.
A travessia do São Francisco e a trilha da Caatinga
O percurso até a Grota do Angico começa de catamarã. Durante a navegação, guias contam histórias da ocupação da região, das antigas canoas de tolda e dos personagens envolvidos nos últimos momentos do bando. Célio Rodrigues, marinheiro que conduz visitantes pelo São Francisco, relata que dois de seus tios participaram involuntariamente da história. “Foi daqui que meus tios, Durval e Pedro, foram torturados pela volante do tenente João Bezerra. Quarenta e oito homens os torturaram e os levaram até onde Lampião estava”, contou.
O desembarque ocorre na margem sergipana do rio, em Canindé de São Francisco. A partir dali, os visitantes enfrentam uma caminhada de aproximadamente 700 metros pela Caatinga. A distância parece pequena, mas o terreno íngreme, formado por pedras e obstáculos naturais, torna o percurso desafiador. A área é protegida e integra a chamada Rota do Cangaço.
Turistas enfrentam desafios para conhecer a história
A turista Ednaide Pimenta sentiu o esforço nas pernas, mas continuou até o final. “O coração fica mais ou menos porque sou hipertensa. Agora, as pernas é que são o pior. Estão bambas. Essa trilha não é moleza, não. Mas, como sou do Sertão da Bahia, estou meio acostumada”, brincou. Para ela, conhecer pessoalmente o cenário ajuda a compreender uma parte importante da história brasileira. “É importantíssimo que isso seja divulgado e ensinado nas escolas”, afirmou.
O servidor público Rafael Holanda também enfrentou dificuldades na subida, mas a vontade de conhecer o lugar falou mais alto. “É para quem tem vontade de conhecer a história. Foi uma realização. Eu estudei história nos livros e queria conhecer. Trouxe também o meu neto, que está gostando e amando”, disse.
Cruzes marcam o local da emboscada
No fim da trilha, cruzes e uma placa identificam os 11 cangaceiros mortos em 1938: Lampião, Maria Bonita, Luiz Pedro, Quinta-Feira, Elétrico, Mergulhão, Enedina, Moeda, Alecrim, Colchete e Macela. O lugar ficou conhecido como Grota do Angico por causa de uma planta que era comum na região durante o período do cangaço. Atualmente, poucos exemplares são encontrados no trecho visitado pelos turistas.
A professora e cantora Elvira Rios percorreu a rota pela segunda vez. Nascida em Santo Amaro, na Bahia, ela cresceu ouvindo dos avós histórias sobre Lampião e o Rio São Francisco. “Meus avós eram do Sertão e falavam muitas histórias de Lampião e do Rio São Francisco. Sou apaixonada pelo Sertão. Vim uma vez, fiquei encantada e quis trazer as amigas”, contou. Para Elvira, a experiência vai além da visita ao local da morte dos cangaceiros. “A história é fascinante. Tem as apresentações culturais e uma animação que parece brotar do rio”, disse. Depois da caminhada, o roteiro termina com banho no São Francisco e comidas regionais. A volta ocorre pelo mesmo rio que acompanhou a movimentação dos cangaceiros, das forças policiais e das comunidades sertanejas durante os anos de atuação do bando.
Xaxado transforma memória do cangaço em dança
Uma das manifestações que preservam essa história é o xaxado. A dança surgiu nas primeiras décadas do século XX e foi praticada pelos cangaceiros, principalmente durante celebrações depois de confrontos considerados vitoriosos pelo grupo. O nome está relacionado ao som produzido pelas alpercatas arrastadas no chão. O chiado dos calçados marca o ritmo, enquanto a coreografia, os figurinos e os adereços reproduzem elementos associados ao cangaço.
Em Piranhas, grupos apresentam o xaxado nas ruas e nos espaços turísticos. Um deles é coordenado pelo guia, ator e produtor cultural Fábio Moura, que interpreta Lampião. Ele conta que se identifica com o personagem por uma série de coincidências. “Lampião era casado com uma baiana, e eu também sou. Lampião mancava de uma perna, e eu também manco. Tenho ainda um problema em um dos olhos”, relatou.
Reconhecido como patrimônio cultural do Brasil desde 2021 como uma das matrizes tradicionais do forró, o xaxado passou por transformações. Se no cangaço a dança era inicialmente associada aos homens, hoje as mulheres são maioria em alguns grupos. A guia de turismo e fisioterapeuta Zezé Leite afirma que as apresentações também são usadas para questionar o machismo. “No xaxado, a gente mostra que o machismo não tem vez e não tem lugar. Nosso grupo hoje é composto mais por mulheres. Mostramos a garra da mulher cangaceira de 1938 e também das mulheres dos tempos atuais”, afirmou.
A manifestação também se tornou um espaço de diversidade. Maria Eduarda, uma mulher trans, integra o grupo há quatro anos e afirma que encontrou acolhimento entre os artistas e o público. “Eu me sinto muito acolhida. Os turistas vêm tirar fotos, fazem elogios e eu não vejo esse preconceito todo aqui”, contou. Em Piranhas, a memória do cangaço permanece viva nas fachadas, no artesanato, nos museus, nas histórias dos moradores e nas atividades econômicas ligadas ao turismo, com o xaxado como um dos principais símbolos dessa herança cultural.



