Indústria brasileira cai 0,2% em maio e interrompe 4 meses de alta
Indústria brasileira cai 0,2% em maio após 4 meses de alta

A produção industrial brasileira registrou queda de 0,2% em maio na comparação com abril, interrompendo uma sequência de quatro meses consecutivos de alta e frustrando as projeções do mercado, que esperavam um crescimento de 0,3% no período. O dado foi divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e representa um sinal de desaceleração do setor produtivo.

No acumulado dos últimos 12 meses, a indústria acumula alta de 1,5%, mas o resultado de maio acendeu alertas entre analistas, que já revisam para baixo as estimativas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para o segundo trimestre. O setor industrial vinha mostrando recuperação desde janeiro, impulsionado por setores como veículos automotores e máquinas e equipamentos.

Desempenho por categorias e setores

Entre as quatro grandes categorias econômicas, duas apresentaram queda em maio: bens de capital recuaram 1,2% e bens de consumo duráveis caíram 0,8%. Por outro lado, bens de consumo semi e não duráveis avançaram 0,5%, e bens intermediários tiveram alta de 0,1%.

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Dos 25 ramos industriais pesquisados, 13 registraram retração. As principais influências negativas vieram de indústrias extrativas (-1,9%), produtos alimentícios (-1,0%) e veículos automotores (-1,5%). Em contrapartida, coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis cresceram 2,3%, e produtos químicos subiram 1,8%.

“A queda de maio interrompe um ritmo de crescimento que vinha sendo consistente, mas ainda não configura uma reversão de tendência”, afirmou André Macedo, gerente da pesquisa do IBGE. “É preciso acompanhar os próximos meses para confirmar se o setor perdeu fôlego ou se foi apenas um ajuste pontual.”

Impacto na economia e expectativas do mercado

A indústria representa cerca de 25% do PIB brasileiro, e o resultado de maio reforça as incertezas sobre a recuperação econômica. O mercado financeiro já projeta um crescimento menor do PIB no segundo trimestre, com estimativas de alta entre 0,2% e 0,4%, ante projeções anteriores de até 0,6%.

Para o economista-chefe da consultoria XP, Caio Megale, “a desaceleração industrial reflete tanto a queda dos investimentos quanto o aperto monetário, que ainda não se dissipou completamente”. Ele destaca que o setor de bens de capital, que recuou 1,2%, é um termômetro dos investimentos produtivos e sinaliza cautela por parte dos empresários.

O governo federal, por meio do Ministério da Economia, afirmou que monitora os dados e que medidas de estímulo ao crédito e à desoneração industrial estão em análise. No entanto, o espaço fiscal limitado reduz a margem para novas intervenções.

Comparação histórica e contexto global

Na comparação com maio de 2023, a produção industrial brasileira teve alta de 1,9%, mas o resultado mensal negativo contrasta com o desempenho de outros países emergentes, como México e Índia, que mantiveram expansão industrial no mesmo período.

A queda de 0,2% é a primeira desde dezembro de 2023, quando o setor recuou 0,3%. A sequência de quatro meses de alta havia acumulado ganho de 2,1% entre janeiro e abril deste ano. O IBGE também revisou os dados de abril, que passaram de alta de 0,1% para estabilidade (0,0%), indicando que o ritmo já vinha perdendo força.

O setor de veículos automotores, um dos principais empregadores, foi impactado pela menor demanda interna e pela redução das exportações para a Argentina, que enfrenta crise econômica. A produção de automóveis caiu 2,3% em maio, segundo dados da Anfavea.

Perspectivas para os próximos meses

Analistas consultados pelo Boletim Focus do Banco Central reduziram a projeção de crescimento da indústria para 2024 de 2,5% para 2,2%, após o dado de maio. A mediana das expectativas para o PIB geral caiu de 2,10% para 2,05%.

Para o segundo semestre, a expectativa é de que a indústria se beneficie da queda da taxa Selic, atualmente em 10,50% ao ano, e da melhora gradual do mercado de trabalho. No entanto, a incerteza fiscal e o cenário externo adverso, com juros elevados nos Estados Unidos, seguem como riscos.

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“A indústria ainda enfrenta desafios estruturais, como custo de energia e burocracia, mas a redução dos juros deve estimular o crédito e os investimentos”, avalia o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban. Ele ressalta que a reforma tributária aprovada recentemente pode trazer ganhos de produtividade no médio prazo.