A quarta-feira (22) marca a entrada em vigor da tarifa adicional de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, medida vista como negativa para os ativos domésticos. No entanto, a sessão é de fortes ganhos para o principal índice da Bolsa brasileira, o Ibovespa, enquanto o dólar registrava leve queda, cotado a R$ 5,05.
Ibovespa em alta com WEG e Vale
O Ibovespa operava em forte alta durante a manhã desta quarta-feira, impulsionado pelos ganhos dos papéis da WEG (WEGE3), que divulgou balanço mais cedo, e da Vale (VALE3), que publicou seu relatório de produção na noite de terça-feira. Às 11h31 (horário de Brasília), o índice subia 1,33%, a 175.630 pontos. Os agentes seguem monitorando a tensão no Oriente Médio, que impulsiona os preços do petróleo no exterior, enquanto também acompanham a agenda de balanços.
Especialista: 'Não devemos interpretar Bolsa e câmbio apenas pela manchete do dia'
Conforme destaca Elson Gusmão, diretor de câmbio da Ourominas, o comportamento do mercado nesta quarta-feira mostra bem por que não devemos interpretar Bolsa e câmbio apenas pela manchete do dia. "A entrada em vigor da tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros é, sem dúvida, uma notícia negativa para setores diretamente expostos ao mercado americano. Mas isso não significa automaticamente queda do Ibovespa e alta do dólar", avalia o especialista.
Riscos já precificados e fatores globais
Gusmão ressalta que o mercado já conhecia boa parte desse risco. Quando uma medida é anunciada com antecedência, parte relevante do impacto costuma ser incorporada aos preços antes mesmo de sua entrada em vigor. Além disso, o Ibovespa tem uma composição muito concentrada em grandes empresas de commodities. Petrobras (PETR3;PETR4) e Vale (VALE3) possuem peso relevante no índice e, neste momento, estão sendo beneficiadas por fatores globais. A Petrobras recebe suporte direto da forte valorização do petróleo, que voltou a negociar próximo de US$ 95 por barril diante das tensões no Oriente Médio e dos riscos sobre importantes rotas de navegação. Além disso, o BB Investimentos elevou a recomendação das ações para a compra. Gusmão ressalta que esse movimento pode ser muito mais importante no curto prazo do que o impacto direto das tarifas americanas.
A Vale também sobe forte, apoiada por números operacionais positivos e por uma dinâmica de negócios muito mais relacionada à China e ao mercado global de minério de ferro do que às exportações brasileiras para os Estados Unidos. Isso ajuda a explicar por que o Ibovespa pode subir mesmo com uma notícia comercialmente negativa para o Brasil: o índice não representa perfeitamente toda a economia brasileira. Grandes empresas podem puxar o mercado para cima enquanto diversos setores menores sofrem.
Câmbio: diferencial de juros e petróleo sustentam o real
No caso do câmbio, o real continua contando com um diferencial de juros muito elevado em relação aos Estados Unidos. Enquanto o Brasil oferece taxas reais e nominais bastante superiores às americanas, existe incentivo para manutenção de posições em reais, principalmente por meio de estratégias de carry trade. Além disso, a valorização do petróleo pode melhorar os termos de troca brasileiros e aumentar a geração de receitas externas do país, oferecendo suporte adicional ao real.
Forças opostas no mercado
“Portanto, a leitura correta não é que o mercado esteja ignorando o tarifaço. O que acontece é que existem várias forças atuando simultaneamente. De um lado, tarifas comerciais, incerteza política e riscos para exportadores. Do outro, petróleo em forte alta, Petrobras valorizando, Vale sustentada por fundamentos operacionais, juros brasileiros elevados e fluxo de capital favorecendo o real. No curto prazo, essas forças positivas estão compensando o impacto negativo das tarifas”, avalia Gusmão.
Riscos futuros
Porém, isso não elimina os riscos. Caso as tarifas sejam ampliadas, tornem-se cumulativas ou desencadeiem uma retaliação comercial mais forte, o impacto sobre crescimento, investimentos e confiança pode aumentar rapidamente.



