Preços abusivos de ingressos para a Copa de 2026 geram investigação nos EUA
Preços abusivos na Copa de 2026 geram investigação nos EUA

Na semana passada, procuradores-gerais de Nova York e Nova Jersey anunciaram uma investigação sobre as entradas da Federação Internacional de Futebol (Fifa) para a Copa do Mundo de 2026. Em um comunicado à imprensa, informaram que irão analisar “uma série de problemas que surgiram com o processo de venda de ingressos da Fifa”, citando relatos que alegam preços exorbitantes, torcedores sendo enganados sobre a localização de assentos e vendas escalonadas de bilhetes para criar uma demanda inflada, o que permitiu à federação aumentar os preços. A oportunidade de assistir à final, em 19 de julho, no MetLife Stadium (Nova Jersey), pode custar aos torcedores quase US$ 33 mil, com ingressos no mercado de revenda chegando a US$ 2 milhões.

Preços dinâmicos e o impacto nos torcedores

A Copa do Mundo de 2026 não é única apenas por ser a primeira a ser realizada em 16 cidades de três países. Os Estados Unidos – com suas 11 cidades sediando 78 das 104 partidas do evento – também possuem um arcabouço regulatório flexível que permitiu à Fifa utilizar, pela primeira vez, preços dinâmicos na venda de ingressos. Esse modelo de precificação ajusta de modo automático, algoritmicamente, os preços dos ingressos com base na demanda, uma prática comum em eventos esportivos e de entretenimento nos Estados Unidos. Embora possa permitir que alguns fãs comprem ingressos baratos de última hora, caso ainda haja lugares disponíveis, a precificação dinâmica geralmente significa ingressos mais caros.

O sistema explodiu no esporte quando o San Francisco Giants foi pioneiro na prática em 2009, levando a Major League Baseball (MLB), a National Hockey League (NHL) e a National Basketball Association (NBA) a seguirem o exemplo alguns anos depois. Os Giants usaram um algoritmo criado com 20 variáveis para determinar o custo de alguns ingressos, começando de US$ 7 a US$ 30, com acréscimos de US$ 0,50 dependendo da demanda.

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De acordo com o Índice dos Preços para Torcedores dos Estados Unidos, os preços das entradas para jogos da NFL e da MLB subiram, em média, cerca de 300% entre 1991 e 2023. Os custos dos ingressos para eventos esportivos aumentaram mais do que o dobro da inflação ao consumidor entre 2000 e 2019, segundo dados do Departamento de Estatísticas do Trabalho do país. Enquanto isso, bilhetes para as finais da NBA deste ano custavam de US$ 2 mil a US$ 6 mil na pré-venda e chegaram a ser oferecidos por até US$ 85 mil na revenda.

A Copa do Mundo como o ápice dos preços

Segundo uma análise do The Athletic, as três principais categorias de ingressos da Fifa tiveram um aumento médio de preço de 34% entre outubro e abril, com a entidade máxima do futebol elevando os custos em outubro, dezembro e abril, em cerca de 10% a 20% em cada um desses meses. Isso se traduziu em preços médios exorbitantes, variando de US$ 380 a US$ 4.105 para os primeiros jogos da fase de grupos e ultrapassando os US$ 13 mil para a final, o que levou o presidente Donald Trump a admitir: “Para ser honesto, eu também não pagaria isso”.

Sem dúvida, a Copa do Mundo sempre foi um evento caro, embora os bilhetes de edições anteriores sejam insignificantes em comparação com os preços deste ano. No Mundial de 2022, no Catar, os ingressos mais caros para a final custavam 5.850 riais catarianos, ou US$ 1.607, um aumento de 46% em relação aos US$ 1.100 cobrados para a mesma partida em 2018. Residentes do Catar puderam comprar ingressos por apenas 40 riais catarianos, ou US$ 11, para os jogos da fase de grupos.

Mas a indignação com os preços dos ingressos para 2026 não se resume apenas ao choque com os valores, segundo economistas e especialistas em turismo. Ingressos na casa das dezenas de milhares de dólares – além dos altos custos de viagem – pode acabar afastando os torcedores e abrir caminho para que os ricos comprem todos os ingressos. Não se trata apenas de uma triste realidade para os que não podem mais assistir aos jogos de seus times favoritos por causa dos preços, disseram os especialistas; isso coloca em risco a sustentabilidade de todo o negócio da Copa do Mundo.

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“É realmente preocupante que possamos ter um mundo onde os estádios, em vez de estarem cheios de fãs vibrantes e entusiasmados, estejam cheios de pessoas ricas tirando selfies com seus celulares para suas contas de influenciadores”, disse Victor Matheson, professor de economia do College of the Holy Cross (Massachusetts), à revista Fortune.

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, defendeu os altos preços dos ingressos, sugerindo que os valores elevados eram resultado das “taxas de mercado” nos Estados Unidos, país com uma economia de entretenimento desenvolvida, e que os americanos estão acostumados a gastar muito com eventos. Ainda assim, a federação vendeu alguns ingressos a US$ 60 para cada partida do torneio, depois que o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, garantiu 1 mil ingressos a US$ 50 cada para os moradores da cidade.

Corporatização do espaço esportivo

Assim como Matheson, Mark DiDonato, professor de gestão esportiva da Universidade Estadual da Flórida, acredita que o alto custo para assistir a eventos esportivos ao vivo levará a uma transformação mais ampla no setor, ou a uma “corporatização do espaço esportivo”. “Muito mais gente da alta administração, que tem condições de comprar esses ingressos, vai aos jogos”, disse ele à Fortune. “E acho que veremos uma diferença em termos de torcedores ou do ambiente por causa disso.” A Fifa não respondeu ao contato da Fortune.

Reservas em hotéis abaixo do previsto

Embora os preços exorbitantes dos ingressos possam impedir que os torcedores compareçam à Copa do Mundo, o livre mercado também pode funcionar na direção oposta. No mês passado, os preços de revenda já estavam caindo. Keith Pagello, fundador da TicketData, disse à NBC News que a queda era resultado da baixa procura pelos ingressos mais caros.

Na verdade, os primeiros indícios mostram que a Fifa pode ter superestimado o impacto econômico projetado de US$ 30,5 bilhões da Copa do Mundo. Um relatório recente da Associação Americana de Hotéis e Hospedagem constatou que, de cerca de 200 hotéis nas 11 cidades-sede americanas, quase 80% relataram reservas abaixo das previsões iniciais. Os hotéis americanos começaram a reduzir as diárias para se adequarem à demanda mais fraca.

A Fifa já vendeu 5 milhões de ingressos para a Copa do Mundo e verá um retorno sobre o investimento, previu Matheson, mas o sucesso de seu modelo de preços ainda está em aberto e pode representar uma “preocupação a longo prazo”. “É possível realmente tornar um esporte amado se as crianças não conseguem ir aos jogos porque seus pais não têm condições de levá-las a vários jogos? Quando as pessoas não têm a oportunidade de ir aos jogos casualmente e você acaba excluindo seu público por causa dos preços, isso significa que, eventualmente, você não tem fãs.”

Por outro lado, acrescentou ele, é para isso que serve a precificação dinâmica. Os preços disparam quando há alta demanda, mas, quando o interesse pelos jogos diminui, têm de cair. “Não seria um sistema de preços dinâmicos se a Fifa não levasse em consideração o que, em última análise, ocorrerá com a venda de ingressos nos Estados Unidos na próxima vez que o evento for realizado na Espanha, em Portugal e no Marrocos”, disse Matheson.