A decisão do Banco Central de cortar a Selic para 14,25% não convenceu o mercado. A extensão do horizonte da política monetária para 2028 foi vista como uma 'bengala para justificar cortes', segundo Jeferson Bittencourt, head de macroeconomia do ASA. Para o ex-secretário-adjunto de Política Fiscal e Tributária do Ministério da Fazenda (2016-2019), o momento representa um 'arranhão na reputação' da autoridade monetária.
Argumentos da ata do Copom geram dúvidas
A ata da reunião do Copom, divulgada na terça-feira (23), argumenta que, sem o corte de juros, a inflação poderia cair ligeiramente abaixo da meta no primeiro ano do novo horizonte. No entanto, Bittencourt questiona a lógica: 'Por que a gente tem uma tolerância tão grande com o tanto que está acima da meta e uma tolerância tão baixa com o tanto que ficaria abaixo da meta?'. Para ele, a convergência da inflação não é um processo perfeito e monotônico, e a explicação para o corte levanta suspeitas.
Crítica ao uso das pesquisas do próprio BC
Outro ponto criticado foi a justificativa de aproximar as projeções de juros às do Boletim Focus e do Questionário Pré-Copom (QPC). Essas pesquisas refletem o que o mercado acredita que o BC fará, mas não garantem a convergência da inflação. 'O que o Focus e o QPC estão projetando é uma trajetória para o que acham que o Banco Central vai fazer, que tem resultado numa inflação cada vez mais longe da meta. Então, se eu não vou me afastar daquilo, eu vou garantir que não vou me aproximar da meta', afirma Bittencourt.
Comunicação ruidosa e risco de desancoragem
A leitura reforça a percepção de uma comunicação confusa, em que o diagnóstico duro do BC convive com uma decisão de juros consideravelmente mais branda. O mercado já havia apontado essa incoerência na repercussão da ata, classificando-a como 'confusa' e alertando para o risco de desancoragem das expectativas de inflação.
Cenário base de pausa no ciclo de cortes
Sobre os próximos passos, Bittencourt entende que o cenário base passou a ser de pausa no ciclo, já que o BC retirou do texto os trechos que sinalizavam cortes ininterruptos, deixando apenas o risco residual de mais uma redução de 0,25 ponto percentual. A consolidação dessa parada dependerá da estabilização do cenário externo, com o petróleo em torno de US$ 77 o barril, e da ausência de novos choques na atividade vindos de programas governamentais, como financiamento para veículos e renegociação de dívidas.
Incentivos fiscais atrapalham o trabalho do BC
O economista reforça a preocupação do mercado de que esses incentivos fiscais são parte do problema, estimulando a economia enquanto os juros altos tentam conter a inflação. A saída, na visão dele, passa por rever parâmetros estruturais do arcabouço fiscal, em especial o limite que permite à despesa total crescer até 2,5% acima da inflação ao ano. Bittencourt argumenta que um ajuste focado apenas em despesas obrigatórias, como restringir programas sociais ou frear o crescimento do salário mínimo, 'principal preço da despesa do governo', será anulado se essa regra de crescimento do gasto total permanecer. 'O que vai acontecer é que a despesa obrigatória vai começar a crescer menos e vai ficar um espaço para a despesa discricionária, que será obviamente ocupado. Se não for ocupado pelo próprio governo, vai ser ocupado pelo Congresso com emenda', adverte.



