O mercado financeiro passou a precificar uma probabilidade maior de dissenso entre os membros do Federal Reserve (Fed) após a retomada dos ataques comerciais entre Estados Unidos e China. A avaliação de analistas é que a escalada das tensões comerciais pode dividir o Comitê de Mercado Aberto (Fomc) na próxima decisão sobre juros.
Expectativa de divergência
Segundo economistas consultados pelo Valor, a retomada das tarifas recíprocas elevou a incerteza sobre o cenário inflacionário e de crescimento. Isso deve levar alguns dirigentes do Fed a defenderem uma postura mais cautelosa, enquanto outros podem argumentar por cortes nos juros para mitigar o impacto econômico.
Na reunião de junho, a decisão de manter a taxa básica em 5,25% foi unânime. No entanto, para o encontro de setembro, a projeção de uma minoria divergente cresceu. Modelos de precificação de opções indicam 35% de chance de ao menos um voto contrário à manutenção dos juros.
Impacto nos mercados
O aumento da probabilidade de dissenso já se reflete nos yields dos títulos do Tesouro americano. Os juros de curto prazo caíram, enquanto os de longo prazo subiram, estreitando a curva de juros – sinal de que investidores esperam uma postura mais dividida no futuro.
“A volta das tarifas comerciais trouxe de volta o debate sobre até onde o Fed deve ir para controlar a inflação sem prejudicar o emprego. Isso naturalmente gera mais divergência interna”, afirmou Maria Silva, economista-chefe do Banco ABC.
O mercado de câmbio também reagiu. O dólar se fortaleceu ante moedas emergentes, refletindo a aversão ao risco. Investidores monitoram de perto os discursos dos dirigentes do Fed nas próximas semanas, em busca de sinais sobre a direção dos votos.
Além disso, a ata da última reunião do Fed, que será divulgada na próxima quarta-feira, deve trazer mais detalhes sobre o grau de discordância entre os membros. Se a ata mostrar que o debate foi mais acirrado do que o comunicado oficial sugeriu, as apostas em dissenso podem se consolidar.



