O Ibovespa encerrou o primeiro semestre de 2026 aos 172.024,12 pontos, acumulando alta de 6,76% no período, mas com perda de fôlego nos últimos meses. Em junho, o índice recuou 1,01%, e no segundo trimestre a queda foi de 8,24%, reduzindo o otimismo do início do ano. Apesar disso, no acumulado de 12 meses, a valorização ainda é expressiva, de cerca de 24%.
Rali perde força com riscos fiscais e eleitorais
O desempenho do Ibovespa na segunda metade de 2026 é incerto. Enquanto algumas instituições ainda veem espaço para alta, outras adotam cautela diante da combinação de juros elevados, incertezas eleitorais e fragilidade fiscal. Segundo Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações, o índice preservou parte da recuperação, mas entrou em fase de maior seletividade. "O Ibovespa não perdeu totalmente sua tendência de recuperação, mas entrou em uma fase de maior seletividade, em que o investidor precisa olhar menos para o índice cheio e mais para a qualidade dos ativos que carrega na carteira", afirma.
Murad destaca que o cenário atual separa empresas resilientes das dependentes de crescimento acelerado e juros menores. Setores de consumo e crédito podem ganhar força se houver melhora fiscal e ciclo de queda de juros; caso contrário, a preferência deve permanecer em companhias com caixa robusto e receitas previsíveis.
Fluxo estrangeiro é peça-chave
O desempenho da Bolsa depende cada vez mais do investidor estrangeiro. Relatório do Morgan Stanley mostra que, após fortes entradas no primeiro trimestre, investidores internacionais voltaram a retirar recursos no segundo trimestre. Ainda assim, o banco mantém recomendação overweight para o Brasil, avaliando que as ações locais negociam próximas de um cenário pessimista, com relação risco-retorno favorável.
Os estrategistas Nikolaj Lippmann e Julia Nogueira afirmam que a migração de recursos para mercados ligados à inteligência artificial, como Coreia do Sul e Taiwan, não é estrutural contra a América Latina. Pelo contrário, a região pode ser beneficiária indireta do ciclo de investimentos em infraestrutura, energia e commodities. O principal risco externo, segundo o banco, é o comportamento dos juros americanos de longo prazo: Treasuries elevados podem drenar recursos dos emergentes.
Fed e Selic ganham protagonismo
Marcos Praça, da Zero Markets Brasil, afirma que julho marca transição importante: temas como conflitos geopolíticos e petróleo perdem espaço para decisões do Federal Reserve, política monetária brasileira e calendário eleitoral. Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, reforça que a trajetória dos juros americanos será determinante para o fluxo ao Brasil, mas ressalta: "O mercado continuará exigindo sinais concretos de responsabilidade fiscal e controle da dívida pública."
Fiscal e eleições no radar
No cenário doméstico, UBS e Bank of America adotaram postura mais conservadora. O UBS rebaixou sua recomendação para neutra, citando fatores adversos; o Bank of America reduziu exposição ao Brasil após revisar projeções para a Selic. O Morgan Stanley reconhece que os desafios fiscais são o principal tema de preocupação, mas avalia que já são amplamente conhecidos e que é cedo para apostas direcionais nas eleições de 2026.
A proximidade do pleito tende a aumentar a volatilidade. "À medida que a disputa eleitoral ganhar intensidade, o mercado tende a incorporar um prêmio adicional de risco, não pela preferência por um candidato específico, mas pelas expectativas em relação à condução da política fiscal, das reformas e do ambiente regulatório", afirma Sidney Lima.
Há espaço para novas máximas?
Apesar dos riscos, algumas instituições seguem otimistas. A XP Investimentos projeta Ibovespa em 205 mil pontos, com oportunidades ligadas à queda dos juros futuros e reprecificação de ativos domésticos. O Morgan Stanley entende que o mercado negocia próximo de seu cenário pessimista (bear case), criando assimetria favorável para investidores de longo prazo. O banco prefere setores ligados à economia global, como energia, materiais básicos, utilities e serviços financeiros, com cautela em cíclicas domésticas.
O consenso entre as casas é a expectativa de um segundo semestre mais volátil, com decisões do Fed, trajetória da Selic, fluxo estrangeiro, situação fiscal e corrida eleitoral mantendo investidores em alerta. Para Murad, isso não significa abandonar a Bolsa, mas sim ser mais seletivo: "O segundo semestre deve premiar menos a aposta rápida e mais o investidor preparado para montar posição com método."



