Governo Trump alega que PIX prejudica concorrência de empresas dos EUA
Governo Trump alega que PIX prejudica concorrência dos EUA

O governo do presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, incluiu o sistema de pagamento instantâneo brasileiro PIX como uma das justificativas para a proposta de tarifa de 25% sobre produtos importados do Brasil. A alegação é de que o PIX prejudica a concorrência com empresas americanas, especialmente operadoras de cartão de crédito e grandes empresas de tecnologia que possuem carteiras digitais. Especialistas e representantes do setor financeiro brasileiro, no entanto, contestam essa visão.

Uso massivo do PIX no Brasil

O PIX se tornou parte do cotidiano dos brasileiros. Vendedores ambulantes, taxistas e lojistas adotaram o sistema como principal meio de pagamento. Eric Leonardo Gomes, que vende biscoitos no sinal de trânsito, conta: “Tudo PIX. Filmou no QR Code, pagou rapidinho”. O taxista Fidelcino Antunes Barroso estima que 70% de suas corridas são pagas via PIX. Já Jaime de Moraes Silva, balconista de uma loja de luminárias sofisticadas, oferece desconto de 5% para pagamentos por PIX: “O pessoal está optando mais por PIX”.

História e alcance do PIX

Os estudos para a implantação do PIX começaram em 2018, no Banco Central do Brasil. O sistema foi lançado oficialmente em novembro de 2020. Dados do BC mostram que oito em cada dez brasileiros utilizam o PIX. Ele permite transferências instantâneas entre contas bancárias, pagamentos no comércio e de boletos. Em janeiro de 2026, o sistema registrou R$ 7 bilhões em transações. Em dezembro de 2025, houve mais de R$ 313 milhões em movimentações financeiras em um único dia.

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Alegações americanas

Na terça-feira (2), o mercado foi surpreendido pelo anúncio do governo americano. O Escritório de Comércio dos Estados Unidos investigou o PIX e concluiu que o Banco Central atua como regulador e operador do sistema, favorecendo o PIX e limitando a atuação de grandes operadoras de cartão de crédito americanas e big techs com carteiras digitais. Há também preocupação com o avanço do PIX internacional, já aceito de forma limitada em países como a Argentina.

Reações no Brasil

Camila Villard Duran, especialista em sistema monetário internacional e professora associada de direito na ESCA, afirma que os argumentos americanos são frágeis. “O PIX proporcionou maior inclusão financeira. Antes, tínhamos uma taxa elevada de desbancarizados. O PIX trouxe mais consumidores para entidades privadas. O acesso é possível a bancos tradicionais, fintechs e entidades reguladas pelo Banco Central, sem restrição a capital brasileiro. A acusação de prática discriminatória não se sustenta”, diz.

Números do BC mostram que, no segundo semestre de 2025, o uso do PIX cresceu mais de 24%, mas o mercado de cartões de crédito manteve expansão. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) afirmou, em nota, que “o PIX é uma infraestrutura de pagamento, e não um produto comercial, que favorece a competição e o bom funcionamento do sistema de pagamentos e da atividade econômica. Trata-se de um modelo aberto e não discriminatório, com participação de bancos, fintechs, instituições financeiras nacionais e estrangeiras”.

A Confederação Nacional do Comércio (CNC) acredita em uma saída diplomática. O economista-chefe da CNC, Fábio Bentes, destaca: “Não interessa para o Brasil não contar com esse meio de pagamento, nem perder a relação histórica com os Estados Unidos. O saldo comercial é favorável aos americanos. Manter a boa relação comercial é fundamental. Beneficia nossa economia e a americana. Muitos setores ficaram preocupados com o tarifaço, que chegou a ser maior que os 25% propostos agora”.

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