Prazo expira sem sinalização de Washington
O prazo para os Estados Unidos decidirem sobre a aplicação de novas tarifas sobre produtos brasileiros termina nesta quarta-feira (15), e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) trabalha com o cenário de confirmação das taxas. Interlocutores da equipe de Lula afirmam que, até a noite de terça-feira (14), o Brasil não havia recebido nenhuma sinalização da equipe de Donald Trump sobre a decisão. A aposta do governo é que a Casa Branca determine um processo de implementação gradual e apresente uma lista de exceções, repetindo o padrão adotado em medidas anteriores.
Investigação e propostas de tarifas
Em 1º de junho, o governo americano concluiu uma investigação que acusa o Brasil de adotar práticas que "oneram ou restringem" o comércio com os Estados Unidos, incluindo desmatamento ilegal, pirataria e o sistema de pagamentos PIX. Como resultado, o Escritório de Comércio dos EUA (USTR) propôs tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras. No dia seguinte, os EUA anunciaram taxas adicionais de 12,5% para 60 países por falhas no combate ao trabalho forçado, incluindo o Brasil. Em ambos os casos, uma longa lista de exceções foi apresentada para evitar alta de preços no mercado americano.
Reuniões técnicas e impasse
Na terça-feira (13), equipes técnicas e de alto nível dos dois países realizaram a quinta reunião para discutir a investigação. Participaram representantes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), do Ministério das Relações Exteriores (MRE), da Assessoria Especial do Presidente e o Representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer. O governo brasileiro reiterou que considera o tarifaço "injusto". Na semana passada, Greer afirmou que os dois países ainda estavam distantes de um acordo.
Precedente de 2024: processo de implementação
Caso as novas tarifas sejam confirmadas, interlocutores de Lula acreditam que a ofensiva de Trump seguirá um processo de implementação similar ao de 2024. Na ocasião, Trump enviou uma carta a Lula e anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, citando Jair Bolsonaro e chamando o julgamento do ex-presidente no STF de "vergonha internacional". Lula respondeu que as taxas seriam retaliadas "à luz da lei brasileira de reciprocidade". Vinte e um dias depois, em 30 de julho, Trump assinou um decreto oficializando a tarifa adicional de 40%, elevando o total para 50%, com uma longa lista de exceções. O decreto entrou em vigor em 6 de agosto, uma semana após a assinatura. A Casa Branca justificou a medida como resposta a ações do governo brasileiro que representariam "ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional, à política externa e à economia dos EUA".
Pressão de empresas americanas por exceções
Empresas americanas que dependem de importações brasileiras têm pressionado Washington para retirar produtos da lista de sobretaxas. Negociadores brasileiros avaliam que, se as novas tarifas forem confirmadas, o Departamento de Estado pode incluir um anexo modificado na decisão sobre os 25%, ampliando as exceções. O Ministério das Relações Exteriores mapeou 43 empresas e associações comerciais americanas que pedem que produtos brasileiros não sejam tarifados, argumentando que não há substitutos domésticos. Estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indicam que o tarifaço pode atingir cerca de 4,2 mil produtos brasileiros exportados para os EUA, representando US$ 15 bilhões.
Reação do governo brasileiro
O governo brasileiro deve aguardar a dimensão da decisão para calibrar sua resposta. Caso a taxação seja confirmada, a reação imediata será manifestar oficialmente "indignação" contra a decisão da Casa Branca. A declaração deve seguir a linha de discursos de Lula e das respostas oficiais do Itamaraty, que afirmam que "a estrutura tarifária aplicada pelo Brasil já é altamente favorável às exportações norte-americanas". Equipes técnicas examinarão a decisão por alguns dias para avaliar os próximos passos, incluindo a possibilidade de acionar a Lei de Reciprocidade. A lei, aprovada em abril de 2024 e regulamentada por Lula em julho, permite retaliar países ou blocos que imponham barreiras contra o Brasil. A diplomacia brasileira acredita que Lula não deve tentar negociar diretamente com Trump neste momento.



