Economia aquecida até 2026 pode esfriar e desafiar novo presidente
Economia aquecida até 2026 pode esfriar e desafiar presidente

A disputa presidencial de 2026 deve ocorrer em meio a uma economia aquecida por medidas de estímulo ao crédito, renda e consumo. No entanto, o vencedor poderá encontrar uma realidade distinta ao assumir o Palácio do Planalto em janeiro de 2027.

Cenário de crescimento temporário

De acordo com especialistas do Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, boa parte do crescimento projetado para este ano é sustentada por programas temporários, enquanto desafios estruturais relacionados à dívida pública, ao orçamento federal e aos juros permanecem sem solução definitiva. O resultado é uma economia que pode chegar forte à eleição, mas desacelerar logo em seguida.

“Qualquer presidente que seja eleito, seja Lula ou seja Flávio, terá que lidar com esse desaquecimento da economia. À medida que os programas se exaurem e os estímulos ficam para trás, a economia parecerá mais fria do que provavelmente parece agora”, afirmou o analista político da XP, Vitor Scalet, durante participação no episódio desta sexta-feira (4).

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A projeção da XP indica que os estímulos anunciados pelo governo têm potencial para movimentar cerca de R$ 190 bilhões e acrescentar até 1,4 ponto percentual ao crescimento econômico de 2026. Segundo Scalet, mais da metade da expansão esperada para este ano está relacionada a medidas de crédito, transferência de renda e incentivos ao consumo.

O desafio começa depois da posse

Para os especialistas, a discussão central não é apenas quem vencerá a eleição, mas quais condições encontrará para governar. A cientista política Lara Mesquita, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), argumenta que a primeira preocupação do próximo presidente não deverá ser econômica, mas política.

“A primeira coisa que o presidente vai olhar no dia seguinte da eleição é qual é o Congresso que foi eleito. Qual é o Congresso que saiu das urnas e o que eu consigo fazer com esse Congresso?”, afirmou.

Segundo ela, o cenário institucional mudou significativamente nos últimos anos. O Congresso ampliou sua influência sobre o Orçamento e passou a ter mais autonomia em relação ao Executivo. “O que observamos neste governo é um Congresso de centro-direita mais programático, mais ideológico e não só pragmático. Isso impacta diretamente na relação do governo e no que ele consegue aprovar.” Na prática, qualquer presidente terá menos margem de manobra para implementar sua agenda econômica.

O problema fiscal continua na mesa

Além da desaceleração esperada para 2027, o próximo governo herdará uma discussão sobre a sustentabilidade das contas públicas. Segundo Scalet, o Brasil convive com um desequilíbrio estrutural que exigirá correções nos próximos anos.

“Quando você faz a matemática da sustentabilidade da dívida no médio prazo, precisaria ter pelo menos uns 2,5% de superávit. Então você tem uns 3 pontos percentuais do PIB que precisa cortar gasto ou aumentar arrecadação, ou provavelmente um mix das duas coisas.” O desafio é agravado pelo alto grau de rigidez do Orçamento. “Quando você olha um orçamento com mais de 90% engessado, você se pergunta como cortar gasto ou aumentar arrecadação numa magnitude dessas. É uma discussão que vai acompanhar qualquer governo.”

Nem Lula nem Flávio escaparão do ajuste

A percepção é que o resultado eleitoral não altera a natureza dos problemas econômicos que o país terá de enfrentar. Independentemente de quem vencer, o próximo presidente encontrará uma economia que tende a crescer menos, uma taxa de juros ainda elevada e um mercado atento à trajetória da dívida pública.

Para Scalet, o principal debate dos primeiros meses do próximo mandato será a capacidade do governo de convencer investidores, empresas e consumidores de que existe uma estratégia crível para estabilizar as contas públicas. “Vai importar qual é a promessa e qual é a capacidade de entregar essa promessa. O mercado vai olhar para o que é crível e para o que é apenas discurso. Isso vale para qualquer presidente.”

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Segundo ele, um ajuste fiscal consistente poderia abrir espaço para queda dos juros e melhora das expectativas econômicas. Sem isso, a tendência é de crescimento mais fraco e inflação mais resistente. “Se você fizer o ajuste fiscal, a expectativa de inflação pode cair e o Banco Central pode cortar juros. Se não fizer, a economia continuará convivendo com juros mais altos por mais tempo.”

O risco pode vir de fora

Os especialistas destacam que o cenário doméstico não será o único fator determinante para o próximo governo. Questões externas, como a política monetária dos Estados Unidos, o comportamento do dólar, conflitos geopolíticos e o fluxo global de capitais para mercados emergentes também devem influenciar o desempenho da economia brasileira.

“Tem uma coisa que talvez seja mais importante que tudo isso: como vai estar a percepção global para os emergentes. Estamos falando de guerra no Irã, eleições de meio de mandato nos Estados Unidos e política monetária americana. Os ativos brasileiros têm variado muito mais por fatores internacionais do que domésticos.”

A avaliação dos analistas é que a eleição de 2026 poderá ser disputada sob uma sensação de melhora econômica. O desafio do vencedor será transformar essa percepção em crescimento sustentável depois que os estímulos eleitorais saírem de cena.