O valor médio do metro quadrado para locação no Rio de Janeiro subiu 42,7% em três anos, passando de R$ 36,1 em maio de 2023 para R$ 51,6 em maio de 2026, enquanto a inflação acumulada no período foi de 14,9%. O aumento é ainda mais expressivo em bairros da Zona Sul, como Copacabana (101,8%), Ipanema (108,3%) e Leblon (105,7%), segundo levantamento do Grupo OLX. Moradores estão trocando bairros tradicionais por alternativas mais baratas, como Niterói e a Zona Norte.
Moradores deixam o Rio ou migram para bairros mais afastados
O ator e servidor público Rodrigo Gicovate, de 37 anos, morava em Copacabana e se mudou há dois anos para Niterói depois que o custo de vida no Rio ficou insustentável. Ele desembolsava cerca de R$ 1,8 mil por mês em Copacabana e, ao procurar quitinetes no Centro do Rio, não encontrou nada por menos de R$ 2 mil ou R$ 2,5 mil. "Estava muito difícil pagar aluguel, contas e todo o custo de vida", afirma. Hoje, mora sozinho em Ponta D'areia, paga R$ 2,2 mil de aluguel e reduziu o tempo de deslocamento para o trabalho. "Comprei uma bicicleta elétrica, chego ao trabalho em cinco minutos", conta.
O gerente de contas Matheus Borges Assis, de 31 anos, trocou Copacabana por Vila Isabel, na Zona Norte, há cerca de dois anos e meio. Ele diz que paga praticamente o mesmo aluguel, mas vive em condições melhores. "Paguei praticamente o mesmo para morar em um apartamento com varanda e garagem." Ele reconhece que as opções de transporte são mais limitadas, mas avalia que o custo-benefício compensou.
Boom internacional e pressão sobre a moradia
O Rio de Janeiro consolidou-se como o principal destino de turistas internacionais no Brasil, com 884,5 mil chegadas no primeiro trimestre de 2026. Dados do Itamaraty mostram que foram emitidos 479 vistos de nômade digital em 2024 e 508 em 2025, e 117 nos três primeiros meses de 2026. Embora o número ainda seja pequeno, especialistas apontam que a presença de trabalhadores remotos estrangeiros pode ser maior, já que muitos entram como turistas e permanecem por períodos prolongados.
O canadense Kyle Pearce, de 42 anos, chegou ao Rio em abril e escolheu Copacabana. Ele trabalha remotamente com marketing digital e pretende ficar até completar 90 dias. "O Rio tem muitas possibilidades, tanto pela qualidade de vida quanto por ser um bom lugar para trabalhar", afirma. Kyle estima que viver no Rio custe cerca de 30% menos que no Canadá.
Investidores estrangeiros apostam no mercado carioca
Segundo o economista Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor da ESPM, a valorização imobiliária resulta de uma combinação de fatores: aumento do turismo internacional, câmbio favorável para quem ganha em dólar ou euro e rentabilidade dos aluguéis de curta temporada. Um levantamento da imobiliária Patrimóvel aponta que estrangeiros responderam por 28% das compras de apartamentos do tipo estúdio em Copacabana, Ipanema e Leblon entre novembro de 2025 e abril de 2026, liderados por americanos, argentinos, espanhóis, romenos e suíços.
Para Pedro Seixas, coordenador acadêmico do MBA da FGV, o principal ponto de atenção são os efeitos indiretos da valorização sobre regiões vizinhas. "O impacto que merece atenção é a pressão sobre bairros próximos e regiões onde a valorização pode dificultar a permanência dos moradores tradicionais", afirma.
Imóveis de curta temporada e o desafio de equilibrar turismo e moradia
O crescimento dos aluguéis por temporada reduziu a oferta de imóveis para contratos tradicionais, especialmente em bairros turísticos. Segundo a empresa Lobie, a participação de estrangeiros em sua carteira passou de cerca de 2% para 18% em três anos, administrando mais de 1.600 studios de investidores internacionais.
O economista Gilberto Braga, professor do Ibmec-RJ, afirma que as plataformas de aluguel por temporada alteraram a dinâmica do mercado e fortaleceram a vocação turística do Rio. "O aluguel por temporada não impulsiona apenas o mercado imobiliário. Ele também fortalece a vocação turística do Rio", diz.
Para Santos Filho, o limite está no ponto em que a valorização expulsa o morador permanente. Ele defende a regulação do uso territorial, com registro obrigatório de imóveis para locação de curta temporada, compartilhamento de dados com o poder público e limites anuais para locação. "No caso do Rio, o caminho mais equilibrado não seria proibir. A alternativa seria regular melhor", conclui.



