Tesouro IPCA+ a 8%: oportunidade histórica exige cuidado com prazo
Tesouro IPCA+ a 8%: oportunidade exige cuidado com prazo

O Tesouro IPCA+ está pagando taxas historicamente altas, vistas pela última vez em mais de dez anos, e chamam a atenção de qualquer investidor, do conservador ao mais arrojado. Mas, enquanto a ideia de travar o juro real ganha força entre os investidores comuns, será que todos devem investir? Segundo especialistas, a resposta depende não só do apetite ao risco, mas do tempo em que o investidor está disposto a ficar com o papel na carteira.

Taxa atual é estatisticamente rara

O patamar atual é estatisticamente incomum. Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research, calcula que, considerando todos os títulos do Tesouro IPCA+ lançados desde 2004, a remuneração real média foi de 5,76% ao ano. “Se a gente considerar o recorte acima de 8%, somente em 5,6% do tempo essa remuneração real ocorreu, quando avaliamos as taxas das últimas duas décadas e meia”, afirma.

Para ele, trata-se de uma oportunidade histórica, mas com uma condição. “É um patamar muito atrativo para o investidor, principalmente aquele que vai fazer o carrego, levar o título até o vencimento”, diz. No jargão do mercado, “carrego” é a estratégia de segurar o papel até o fim, garantindo a taxa contratada e ignorando as oscilações de preço no meio do caminho.

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Já Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital, discorda da leitura de oportunidade. Para ele, o prêmio elevado apenas reflete os riscos no radar – fiscal, eleitoral, climático e externo – e, por isso, a gestora mantém alocação zero em NTN-Bs. “Mesmo com NTN-Bs pagando taxas reais próximas ou superiores a 8%, não observamos fluxo institucional suficiente para provocar o fechamento consistente dessas taxas”, afirma. Ele cita o crescimento dos gastos públicos e o aumento da oferta de títulos como fatores que seguem pressionando a curva de juros, além de riscos externos e climáticos que podem gerar volatilidade em alimentos e energia.

Taxa alta não é para todos

Os dois especialistas convergem em um ponto: a taxa elevada, por si só, não torna o título adequado a qualquer investidor. “O Tesouro IPCA+ não faz sentido para quem pode precisar do dinheiro antes do vencimento, possui objetivos de curto ou médio prazo, está formando reserva de emergência ou não aceita oscilações negativas relevantes no patrimônio”, resume Belitardo. Almeida acrescenta um filtro menos óbvio: a concentração por indexador. Quem já carrega fundos imobiliários de papel e debêntures incentivadas atreladas à inflação pode ter menos espaço para o título público do que imagina. “Existe essa concentração via indexador que o investidor precisa se atentar”, diz.

O risco central é a chamada marcação a mercado, que é a atualização diária do preço do título conforme as taxas negociadas. Se o investidor precisa vender antes do vencimento em um momento em que o mercado exige juros maiores do que os contratados, o preço do papel cai e ele pode resgatar menos do que aplicou. Quanto mais longo o vencimento, maior a oscilação. “A surpresa vem do desconhecimento do produto, da dinâmica de mercado e de como o cenário está construindo essas expectativas”, afirma Almeida. Belitardo acrescenta um alerta frequente entre especialistas: queda da Selic não garante valorização das NTN-Bs. Para o papel subir, é a taxa real negociada pelo mercado que precisa recuar.

Perfis de risco: conservador

Para o investidor conservador, as recomendações variam. Na Hike, o limite máximo considerado para NTN-Bs seria inferior a 5% do portfólio — e, ainda assim, a posição efetiva é zero. “Existem alternativas de renda fixa com qualidade de crédito elevada, menor oscilação, mais liquidez e retorno líquido competitivo”, diz Belitardo, citando estratégias pós-fixadas, FIDCs de boa qualidade e crédito corporativo selecionado.

Na Suno, o conservador pode ter o título, desde que em fatia reduzida e com vencimentos mais curtos. “Quando você tem um movimento de abertura na curva de juros, isso impacta muito mais o IPCA+ 2050 do que o IPCA+ 2032”, explica Almeida. A lógica é que quanto menor o prazo, menor a sensibilidade do preço às mudanças de cenário. Para ele, mais importante do que o retorno é o investidor conhecer o produto e casar o vencimento com o objetivo financeiro.

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Perfis de risco: moderado e arrojado

Para perfis moderados e arrojados, Almeida vê espaço para ampliar a exposição e alongar os prazos. “Quanto mais arrojado esse investidor é, mais exposição a IPCA+ ele tem, da mesma forma que mais exposição em renda variável ele também vai ter”, afirma. O investidor arrojado, diz, aceita a oscilação porque busca inclusive o ganho de marcação a mercado, quando a queda das taxas valoriza o papel antes do vencimento. Ele evita, porém, cravar percentuais: a fatia adequada depende da composição de cada carteira.

Belitardo mantém a régua no mesmo lugar para todos os perfis. “Aceitar mais risco não significa comprar qualquer ativo que esteja oscilando ou apresentando taxas elevadas”, afirma. Para ele, o arrojado tem alternativas melhores para gastar seu orçamento de risco, seja no crédito privado, renda variável ou em ativos internacionais, e o prazo adicional das NTN-Bs longas “não oferece uma compensação suficiente para o risco de marcação a mercado”.

Prazo de aplicação: longo prazo

Quando o objetivo é a aposentadoria, a defesa do título ganha mais força. Para Almeida, títulos indexados à inflação são “imbatíveis” nesse objetivo, e não por acaso dominam as carteiras dos fundos de previdência. Ele destaca também o Tesouro RendA+, versão do título desenhada para pagar renda mensal por 20 anos após a data de conversão, que segundo ele oferece juro real entre 7,10% e 7,60%. “Além de entregar um retorno acima da inflação, ele entrega o gerenciamento do fluxo de caixa, que é o que de fato se espera na aposentadoria”, diz.

Prazo de aplicação: curto e médio prazo

Para objetivos como comprar uma casa dentro de alguns anos, a taxa pode não justificar a aplicação. Para prazos de até cinco anos, Belitardo aponta que, com a Selic a 14,25% e expectativa de juros elevados por mais tempo, os pós-fixados seguem entregando rentabilidade alta com menos volatilidade. Além disso, diz, títulos isentos de Imposto de Renda, dependendo da taxa e do prazo, podem superar o retorno líquido de um Tesouro IPCA+ a 8%, sobretudo se a inflação ficar abaixo de 6%.

Almeida segue a mesma direção para prazos curtos: pós-fixados, especialmente Tesouro Selic, e prefixados apenas quando o vencimento coincide com a data do objetivo. O IPCA+ entra somente “quando o investidor tem clareza em relação à sua data-alvo e o vencimento do título coincide com essa data”.

Em relatório, a XP ajuda a dimensionar essa conta. Segundo os cálculos da casa, no horizonte de 12 meses a NTN-B tende a render abaixo do CDI. Para empatar com a taxa de referência da renda fixa, seria necessário um IPCA acima de 5,6% no caso do Tesouro IPCA+ 2035, contra projeção da própria XP de 5,2% para a inflação de 2026 e 4,5% para 2027.

O time de renda fixa da corretora recomenda a compra dos papéis mesmo assim. A ideia é travar o juro real elevado pensando no médio e longo prazo, já que o pós-fixado precisará ser reinvestido a taxas menores ao longo do ciclo de cortes. Mas o próprio relatório ressalva que, no caminho, a posição pode oscilar com a marcação a mercado e ficar atrás do CDI no primeiro ano.