Multimercados têm pior semestre em anos e perdem para poupança e CDI
Multimercados têm pior semestre e perdem para poupança

Os fundos multimercados enfrentam um início de ano desafiador, com dúvidas crescentes sobre sua capacidade de diversificar riscos e antecipar surpresas do mercado por meio da gestão ativa. O Índice de Hedge Funds da Anbima (IHFA), que reúne 259 fundos multimercados, encerrou o primeiro semestre com alta de apenas 3,26%, bem abaixo dos 6,85% do CDI, dos 6,76% do Ibovespa e até mesmo da caderneta de poupança, que acumulou ganho de 3,93% no período. Vale destacar que o índice é uma amostra ampla e há fundos com desempenho superior. Levantamento do InfoMoney com dados da Economatica mostra que, entre 220 multimercados de estratégia macro, 122 superaram o IHFA no primeiro semestre, mas apenas cinco conseguiram superar o CDI. A performance abaixo do esperado também explica os resgates: R$ 10 bilhões em saídas líquidas no primeiro semestre, segundo dados da Anbima.

Questionamento sobre o papel dos multimercados

João Arthur, diretor de investimentos da Suno Consultoria, afirma que os multimercados deveriam entregar retorno acima do referencial e descorrelacionado com os mercados, mas, de maneira geral, não cumprem esse papel. “Os resultados atuais reforçam essa visão, pois esses fundos não superaram o referencial consistentemente e não têm o benefício da diversificação, com desempenhos muito parecidos com bolsa e NTN-B”, diz. Segundo ele, a gestora tem por princípio não investir em multimercados e não se arrepende. “Esses fundos não devem acabar, pois sempre haverá bons gestores, mas a categoria deve continuar diminuindo, dos 20% do patrimônio dos fundos para 5% a 10%”, afirma.

O que explica o desempenho fraco?

Mudanças drásticas de cenário nos primeiros seis meses do ano ajudam a compreender o mau desempenho dos multimercados, mesmo de gestores com bom histórico. Quatro pontos principais explicam o resultado:

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1. Guerra no Oriente Médio

O conflito no Oriente Médio é a principal razão, agravada pelo fato de estratégias tradicionais de proteção não terem funcionado. Ouro e títulos do Tesouro americano, que deveriam servir como porto seguro, reagiram negativamente e agravaram as perdas em bolsa. Além disso, o cenário de desvalorização global do dólar se reverteu com a recuperação das empresas de inteligência artificial americanas.

2. Escolhas das carteiras

Estudo da Suno com dados de janeiro de 2011 a março de 2026 mostra que mais da metade dos resultados dos multimercados medidos pelo IHFA vinha do chamado “kit Brasil”, ou seja, ativos ligados à boa performance da bolsa brasileira, do real e dos juros locais. Outra parte importante veio do apetite a risco global e uma terceira, do crédito corporativo, ligado à aplicação em debêntures. Esses três fatores explicavam 77,5% do resultado dos multimercados.

3. Juros altos

Com o CDI acima de 1% ao mês, a barra do referencial fica altíssima. Se o gestor erra, precisa tomar mais risco para recuperar a perda, muitas vezes se distanciando ainda mais do referencial. A isso se soma o custo dos fundos, em sua maioria com taxa de administração de 2% mais 20% do que superar o CDI. “Esse custo pesa entre 2,5% e 4% ao ano, enquanto uma cesta de ETFs replicando o mesmo ‘kit Brasil’ custa uma fração disso”, afirma Eduardo Marocke, head de fundos e renda fixa da Faz Capital.

4. Fluxo de saída

Com forte saída de investidores após mudança na tributação dos fundos exclusivos, o desempenho sofrível e a busca por papéis isentos, fundos de renda fixa, FIDCs e ETFs continuam atraindo recursos.

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Olhar de longo prazo

Eduardo Marocke, da Faz Capital, afirma que a poupança superar o índice de multimercados num semestre diz mais sobre o nível da Selic do que sobre a competência dos gestores. “É verdade que o IHFA rendeu abaixo da poupança e mais ou menos metade do CDI, mas seis meses é uma janela curtíssima para condenar uma classe que se propõe a entregar valor no médio e longo prazo”, afirma. “É como avaliar um filme inteiro por uma única imagem”, acrescenta. Para ele, os multimercados fazem sentido para um investidor de perfil moderado-arrojado em diante, mas com uma régua de tempo compatível com a classe: no mínimo 18 a 24 meses, idealmente 36 meses ou mais. Segundo ele, olhando a série histórica completa do IHFA, o índice acumula cerca de 540% desde 2008, contra 494% do CDI. “Ou seja, no longo prazo, o prêmio existiu”, diz. Analisando o período de 2013 a 2023 em janelas de 24 meses, o IHFA superou o CDI em torno de 85% das observações. “A classe historicamente recompensa a paciência, não o timing curto”, afirma Marocke. O que explica o desconforto atual é que os últimos anos foram uma dura exceção. Nas janelas móveis recentes, hoje é o CDI que está na frente: na de 3 anos o IHFA acumula algo como 31% contra 44% do CDI, e na de 5 anos, cerca de 53% contra 77% do indexador. “Não é que a classe ‘morreu’, é que ela vive o pior trecho relativo em muito tempo, e isso pesa na cabeça de quem entrou tarde”, diz.

Perspectivas para o segundo semestre

Para os próximos meses, a perspectiva é de maior dispersão de resultados. “Sou cauteloso em cravar melhora, por um motivo simples: a barra continua alta”, afirma Marocke. Diante disso, a seleção dos gestores fará diferença. “Num ambiente de riscos locais mais evidentes, o papel do multimercado como diversificador volta a ser relevante e gestores realmente bons capturam valor combinando posições direcionais e relativas em vários mercados, algo que o ETF passivo não replica”, diz. Segundo Arthur, da Suno, os multimercados faziam sentido quando o investidor não tinha opções para diversificar diretamente seus investimentos nos mercados. Hoje, há várias opções baratas, como contas no exterior ou ETFs e BDRs, e não precisa pagar 2% ao ano mais 20% de performance para diversificar, defende Arthur. “Sempre haverá um gestor do momento, já foi o Verde, a SPX, a Adam, como tem muita gente fazendo muita coisa, sempre tem alguém indo bem e concentrando as aplicações, mas os multimercados não devem chegar aos 25% dos fundos como no passado”, afirma. Apesar do desempenho fraco de boa parte do setor em 2026, isso não invalida a classe como um todo, afirma Thomaz Gouveia Vieira, analista da gestora de patrimônio Aware Investments. “Na prática, reforça a importância de separar estratégias mais dependentes de direção daquelas com maior capacidade de proteção, diversificação e geração de alfa em cenários mais turbulentos”, explica. Ele considera fundamental avaliar não apenas o produto, mas principalmente o gestor por trás dele, porque, nesse tipo de investimento, a qualidade da equipe de gestão é um dos principais determinantes de resultado. Por isso, faz diferença entender o histórico do gestor, a consistência de performance ao longo de diferentes ciclos, a estratégia adotada, o nível de risco assumido e a forma como o fundo se comporta em momentos de estresse. Além disso, observar métricas como volatilidade, picos de baixa e correlação com outros ativos ajuda a entender se o fundo está alinhado ao perfil do investidor e ao papel que ele deve cumprir dentro da carteira.

Expectativa de volatilidade e alocação

A expectativa para o segundo semestre é de continuidade da volatilidade, diz Roberto Motta, estrategista macro da Genial Investimentos. Cada multimercado terá suas próprias características, especialidades e estratégias, diz, “por isso, não dá para afirmar que a classe necessariamente continuará performando mal”, afirma. Para ele, esses fundos podem se beneficiar de uma guinada no mercado local, de um “trade” eleitoral ou de alguma assimetria específica capturada pelos gestores. “O ponto é que multimercado é uma classe menos previsível, o investidor está entregando seu dinheiro para que o gestor busque as melhores oportunidades, de acordo com sua leitura de mercado”, lembra Motta. “Por isso, é difícil dizer se os multimercados vão dar a volta por cima ou se continuarão sofrendo. Tudo dependerá da capacidade dos gestores de navegar esse ambiente mais volátil”. Motta considera que os multimercados continuam sendo uma classe importante dentro de um portfólio diversificado. “O grande desafio é definir o tamanho da participação dessa classe na carteira de cada investidor”, diz. Essa alocação pode ser de 5%, 10%, 15% ou outro percentual, dependendo do perfil de risco de cada cliente. “O ponto central é que os multimercados estão com volatilidade muito alta, e volatilidade é risco, portanto, a exposição precisa estar adequada ao apetite de risco de cada investidor”. Na XP Investimentos, os multimercados são vistos com papel ainda mais relevante em um contexto de riscos mais evidentes no mercado local. A casa vê a exposição à classe próxima do neutro, e reforça “a importância da seleção criteriosa de gestores, priorizando aqueles com histórico consistente de gestão de risco e execução, com preferência por fundos focados em estratégias Macro e Long & Short, que tendem a navegar melhor ambientes de maior incerteza”.

Perspectiva da Anbima

A continuar o cenário que temos hoje, os fundos de renda fixa devem continuar crescendo e multimercados e ações sofrendo, diz Pedro Rudge, diretor da Anbima. “O investidor prefere ir para instrumentos mais conservadores com rentabilidade bastante interessante, de 14% ao ano e alguns sem imposto nenhum”, diz. Ele acredita, porém, que os multimercados podem melhorar sua performance nos próximos meses pela redução da volatilidade, mas não a captação. “A melhora da captação está muito atrelada à redução de aversão a risco, e investidor tem de vislumbrar melhora no cenário macro ou queda de juros, o que no momento está mais difícil”, diz. “Estamos há quatro anos em tendência de redução do patrimônio desses fundos multimercados e de ações, e temos visto gestores buscando diversificar estratégias, lançando produtos de crédito privado e infraestrutura para amenizar a redução de patrimônio, além de movimentos de consolidação, com fusões ou fechamentos de gestoras”, diz. “Buscamos formas de auxiliar participantes neste momento, em reduzir custos, oferecer tecnologia, mas é um movimento de mercado”, conclui.