Os fundos multimercados, tradicionalmente vistos como opção de diversificação e retorno superior, estão registrando desempenho inferior ao da poupança em 2026. Dados recentes indicam que a rentabilidade média desses fundos não tem acompanhado sequer a caderneta, que já oferece rendimento real negativo. Analistas apontam que o cenário de juros elevados e a aversão ao risco nos mercados globais têm prejudicado as estratégias dos gestores.
Desempenho abaixo da expectativa
De acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), o Índice de Hedge Funds (IHFA) acumula alta de apenas 2,5% nos primeiros seis meses de 2026, enquanto a poupança rendeu 3,2% no mesmo período. A diferença, embora pequena, representa uma inversão de papéis: historicamente, os multimercados superam a poupança com folga. “O problema é a combinação de juros altos com volatilidade cambial e incertezas fiscais”, explica Carlos Sardenberg, economista-chefe da gestora Sparta.
Fatores que explicam o martírio
O principal vilão é a política monetária restritiva. A taxa Selic, atualmente em 14,25% ao ano, eleva o custo de carregamento de posições e reduz o apetite por risco. Além disso, a guerra comercial entre Estados Unidos e Irã gerou oscilações bruscas nas commodities, afetando estratégias que apostavam em tendências de longo prazo. Outro fator é a fuga de capital estrangeiro, que pressiona o câmbio e dificulta operações de arbitragem.
Impacto para o investidor
Para o investidor pessoa física, o resultado é frustrante. Muitos migraram para multimercados em busca de proteção contra a inflação e ganhos reais, mas acabaram com retorno inferior ao da poupança, que é isenta de Imposto de Renda para pessoas físicas. “O investidor precisa reavaliar a alocação. Talvez seja o momento de buscar ativos atrelados à inflação ou renda fixa pós-fixada”, sugere Fernanda Oliveira, analista da XP Investimentos.
Perspectivas de recuperação
A pergunta que fica é: quando o martírio pode acabar? Especialistas são cautelosos. A expectativa é de que, com a eventual queda da Selic no segundo semestre e a redução das tensões geopolíticas, os multimercados voltem a ganhar tração. No entanto, o cenário-base do mercado é de juros altos por mais tempo. “Só veremos melhora consistente quando houver clareza sobre o rumo fiscal e a política externa”, afirma Sardenberg. Até lá, a poupança segue como referência incômoda.



