O fluxo estrangeiro para a bolsa brasileira voltou a ser positivo em julho, mas o JPMorgan avisa que o movimento é passageiro. Em relatório publicado nesta quinta-feira (23), o banco afirma que o mercado brasileiro está muito leve — com posicionamento reduzido, volume em queda e catalisadores domésticos escassos — e que o ambiente nos próximos meses não tende a ser de recuperação.
Para Emy Shayo e equipe de estrategistas que assinam o relatório, o alívio não deve durar, como destacado no título do documento: “A Respite That Won’t Last”.
Até o dia 21 de julho, os estrangeiros haviam comprado R$ 4,2 bilhões em ações brasileiras na B3, revertendo parcialmente as saídas pesadas dos três meses anteriores. No segundo trimestre, R$ 25 bilhões deixaram o Brasil, o equivalente a cerca de 50% de tudo que havia entrado no primeiro trimestre. No acumulado do ano, o saldo ainda é positivo em R$ 32,6 bilhões — o segundo melhor resultado histórico para o período —, mas isso reflete principalmente a força do início do ano, não o momento atual.
Fatores do alívio recente
O banco identifica dois fatores que explicam o alívio recente: o cessar-fogo no Oriente Médio derrubou o preço do petróleo temporariamente, o que, combinado com dados benignos de inflação e emprego nos EUA, abriu espaço para algum apetite a risco. Mas o Brent voltou a subir acima de US$ 100 por barril, o que fez os juros dos Treasuries dispararem novamente. Historicamente, quando os yields americanos sobem, o fluxo para o Brasil cai.
Além disso, a correção no trade de inteligência artificial — o índice de semicondutores SOX caiu 20% desde o pico, e o Kospi sul-coreano recuou 30% — trouxe de volta, por alguns dias, o interesse por ativos de “valor real” (o chamado trade HALO), beneficiando mercados como o Brasil, rico em commodities. O JPMorgan, porém, avalia que o desalavancamento na Coreia está em grande parte concluído e que os fundamentos do setor de tecnologia americano seguem sólidos, o que limita a duração dessa rotação.
Mercado brasileiro está muito leve
Independentemente do fluxo pontual de julho, o JPMorgan destaca que o posicionamento dos investidores no Brasil está em níveis historicamente baixos. O número de fundos com posição net overweight em Brasil caiu de 34 no quarto trimestre de 2024 para apenas 20 em maio de 2026 — o menor nível nos últimos 12 meses.
O volume médio diário negociado (ADTV) na B3 caiu de forma expressiva desde abril, refletindo menor interesse e menor liquidez. A alocação em ações como percentual do patrimônio total dos fundos mútuos recuou para 7,75%, o menor nível desde julho de 2025 e bem abaixo da média histórica de 11%.
Para o banco, esses dados mostram que o mercado está “vazio” — o que pode ser lido como potencial de recuperação em caso de melhora do cenário, mas também como sinal de que os investidores simplesmente não veem gatilhos suficientes para aumentar exposição agora.
Dois freios domésticos: juros e eleições
Na ausência de um impulso externo, o JPMorgan aponta que o noticiário doméstico também não ajuda, por dois motivos. Em primeiro lugar, estão os juros. A esperança de um ciclo de cortes mais agressivo da Selic praticamente desapareceu. No início do ano, o banco projetava que a taxa básica poderia cair para cerca de 11%. Agora, a estimativa é de apenas mais dois cortes de 25 pontos-base, com a Selic encerrando 2026 em 13,75%. A culpa é da inflação mais persistente e da piora das expectativas inflacionárias, especialmente para 2027 e 2028. Juros mais baixos eram um dos principais catalisadores esperados para a bolsa neste ano — e esse gatilho não vai se materializar.
Em segundo lugar, estão as eleições. As pesquisas mais recentes mostram o presidente Lula à frente de Flávio Bolsonaro, mas o JPMorgan avalia que a disputa será acirrada. O banco descarta, por ora, a possibilidade de um terceiro candidato relevante, mas ressalta que a eleição ainda está a três meses de distância e muito pode mudar. O ponto mais importante, segundo o relatório, é histórico: em todos os anos eleitorais deste século, a bolsa brasileira teve desempenho negativo nos seis meses que antecederam o primeiro turno. O banco acredita que esse padrão deve se repetir em 2026, dado o nível de incerteza e a volatilidade crescente.
O calendário eleitoral prevê convenções partidárias entre 20 de julho e 5 de agosto, prazo final para registro de candidaturas até 15 de agosto, início oficial da campanha em 16 de agosto, primeiro turno em 4 de outubro e eventual segundo turno em 25 de outubro.
Fundos locais também recuam
O quadro de fluxos domésticos reforça o diagnóstico de mercado leve. A indústria de fundos mútuos registrou saída líquida de R$ 5,3 bilhões em junho, o segundo mês consecutivo de resgates no ano. No acumulado de 2026, as captações ainda somam R$ 185 bilhões, mas a tendência recente é de reversão.
Os fundos de ações tiveram entrada líquida pela primeira vez no ano em junho, mas de apenas R$ 0,02 bilhão — praticamente zero. No acumulado do ano, o segmento ainda registra saída de R$ 6,5 bilhões. Os hedge funds acumulam saída de R$ 9,9 bilhões no ano, com resgates de R$ 14,3 bilhões apenas em junho, estendendo uma tendência que começou em fevereiro. Os fundos de renda fixa continuam dominando a captação, com entrada acumulada de R$ 108,4 bilhões no ano — reflexo direto da Selic elevada, que torna o carrego em juros mais atrativo do que a renda variável.
Os fundos de pensão reduziram drasticamente sua alocação em ações nos últimos cinco anos, de 20% para apenas 8% do patrimônio total, uma das quedas mais expressivas entre os investidores institucionais domésticos.
Participação estrangeira na mínima histórica
Outro dado que chama atenção no relatório é a participação dos estrangeiros no free float da B3, que está próxima das mínimas históricas. Nos últimos anos, o peso dos investidores de fora no volume negociado diário recuou de forma consistente, enquanto o investidor de varejo ganhou espaço — mas sem compensar a saída do capital externo em termos de liquidez e profundidade de mercado.
O número de pessoas físicas cadastradas na B3 chegou a 6,5 milhões, um recorde histórico, mas o ADTV segue pressionado, o que mostra que o crescimento da base de investidores individuais não se traduziu em aumento proporcional de volume.
O que poderia mudar o jogo
O JPMorgan não descarta uma virada, mas condiciona qualquer melhora mais sustentada a fatores externos. O principal seria uma mudança na precificação do Fed: o banco projeta que o banco central americano só voltará a subir juros no segundo semestre de 2027. Se o mercado começar a incorporar esse cenário mais cedo, pode abrir espaço para novo ciclo de apetite a risco — e o Brasil, com seus juros reais elevados e carry atrativo, tende a ser um dos primeiros beneficiados.
Enquanto isso não acontece, a leitura do JPMorgan é clara: o alívio de julho é real, mas frágil. Sem um gatilho externo mais consistente ou uma mudança no cenário doméstico — seja nos juros, seja na narrativa eleitoral —, a bolsa brasileira deve continuar navegando sem direção definida nos próximos meses.



