O entusiasmo em torno da inteligência artificial (IA) começa a dar lugar a uma postura mais cautelosa por parte dos investidores globais. Após meses de euforia e valuations elevados, o mercado passa a questionar a capacidade das empresas de gerar retornos concretos com a tecnologia. Um levantamento do Bank of America com gestores de fundos ao redor do mundo revela que 62% dos entrevistados consideram as ações de IA supervalorizadas, percentual recorde na série histórica.
Decepção com resultados financeiros
O principal fator para a mudança de humor é a percepção de que muitas companhias ainda não conseguiram traduzir o hype em lucros. Grandes nomes do setor, como OpenAI e Anthropic, reportaram prejuízos bilionários mesmo após rodadas robustas de captação. No primeiro trimestre de 2026, o índice de ações de IA caiu 8,3%, enquanto o S&P 500 registrou alta de 2,1% no mesmo período, segundo dados da Bloomberg.
“O mercado está começando a exigir resultados tangíveis. A IA não é mais uma promessa distante, e os investidores querem ver receitas e margens”, afirma Carlos Albuquerque, analista sênior da XP Investimentos. Para ele, a correção atual é saudável, pois elimina empresas sem fundamentos sólidos.
Redução de aportes em startups
O fluxo de capital para startups de IA também desacelerou. No segundo trimestre de 2026, os investimentos em venture capital no setor somaram US$ 12,4 bilhões, queda de 34% ante o mesmo período de 2025, conforme relatório da CB Insights. A retração é mais acentuada em empresas de estágio inicial, que dependem de expectativas futuras para atrair recursos.
Grandes fundos de pensão e seguradoras, que haviam aumentado a exposição a ativos de IA nos últimos dois anos, agora estão rebalanceando suas carteiras. O fundo soberano da Noruega, por exemplo, reduziu em 15% sua participação em ações do setor de tecnologia no último mês.
Setor de infraestrutura mantém atratividade
Apesar da cautela geral, alguns nichos continuam atraindo investimento. Empresas de infraestrutura de dados, como fornecedores de chips e data centers, ainda são vistas como apostas mais seguras por se beneficiarem do crescimento da IA independentemente do sucesso comercial de cada aplicação. A Nvidia, maior fabricante de chips para IA, reportou receita recorde de US$ 32 bilhões no trimestre, alta de 45% ano a ano.
“A demanda por capacidade computacional continua firme. Mesmo que o hype diminua, a corrida pela infraestrutura segue acelerada”, explica Marina Cardoso, economista-chefe da gestora Kapitalo.
Perspectivas para o segundo semestre
Para os próximos meses, analistas esperam maior seletividade. O Bank of America projeta que os valuations das empresas de IA podem cair mais 10% a 15% até o fim de 2026, caso os resultados do terceiro trimestre não surpreendam positivamente. Por outro lado, uma eventual desaceleração nos gastos com infraestrutura poderia pressionar ainda mais o setor.
A cautela dos investidores reflete um amadurecimento do mercado, que agora busca separar as empresas com modelos de negócio sustentáveis daquelas que vivem apenas de expectativas. A frase de ordem entre os gestores é: “mostre-me os números”.



