Os fundos imobiliários de recebíveis, conhecidos como FIIs de papel, continuam no topo dos retornos do mercado, beneficiados pelo cenário de juros elevados. Com carteiras majoritariamente indexadas ao CDI, esses fundos têm distribuído dividendos robustos, superando no curto prazo a performance dos FIIs de tijolo.
Desempenho atrelado ao ciclo monetário
Na avaliação de especialistas consultados pelo InfoMoney, o desempenho está diretamente ligado ao ciclo monetário atual. A trajetória futura da Selic, da inflação e as eleições serão determinantes para a continuidade desse cenário nos próximos trimestres. Michel Bezerra, analista da TRX/Trix, afirma que o ambiente ainda favorece os fundos indexados ao CDI, mas pondera que essa vantagem tende a diminuir quando o mercado precificar uma queda mais consistente dos juros.
“Enquanto os juros permanecerem elevados, a maior atratividade da renda fixa tende a reduzir o interesse da pessoa física por ativos de maior risco e a favorecer os fundos de papel, que conseguem entregar dividend yields mais elevados. Em um cenário de queda consistente dos juros, esse movimento pode se inverter, com uma reprecificação mais favorável das cotas dos fundos de tijolo”, diz Bezerra.
Ranking dos 10 maiores retornos em 12 meses
O levantamento da Economatica, com dados de 27 de julho de 2025 a 27 de julho de 2026, aponta os fundos com os maiores retornos no período. O Manatí Capital Hedge (MANA11) lidera com 21,29% de retorno em 12 meses, seguido pelo AF Invest CRI (AFHI11) com 17,51% e pelo Kinea Rendimentos Imobiliários (KNCR11) com 17,50%. Outros destaques incluem Polo Crédito Imobiliário (PORD11) com 16,91%, Kinea Securities (KNSC11) com 16,18%, e Kinea Créditos (KCRE11) com 15,65%. Completam a lista: Kinea Índices de Preços (KNIP11) com 15,44%, Kinea Unique HY CDI (KNUQ11) com 15,32%, Kinea High Yield CRI (KNHY11) com 12,44%, e Itaú Crédito Imobiliário IPCA (ICRI11) com 11,90%.
Riscos e cautela: rendimento elevado não é sinônimo de boa gestão
O momento favorável, no entanto, exige cautela. Para Bezerra, o rendimento elevado não deve ser confundido automaticamente com qualidade de gestão. “O CDI e a inflação elevados aumentam o rendimento dos fundos de papel e podem, de fato, reduzir temporariamente a percepção das diferenças entre as gestoras. Com o indexador trabalhando a favor, torna-se mais fácil apresentar distribuições elevadas. Entretanto, rendimento elevado não deve ser confundido automaticamente com boa gestão.”
Michael Viriato, planejador financeiro CFP, reforça que a verdadeira capacidade do gestor aparece justamente em ciclos de mudança nos juros. “Quando o CDI está muito alto, boa parte da rentabilidade vem do próprio indexador. Isso reduz a percepção das diferenças entre gestores. A verdadeira qualidade da gestão aparece principalmente na seleção do crédito, na negociação dos ativos e no controle da inadimplência.”
Impacto de uma eventual queda da Selic
Embora os fundos indexados ao CDI sejam os principais beneficiados, os especialistas avaliam que o cenário tende a se reverter se o Banco Central iniciar um ciclo consistente de redução dos juros. Segundo Rafael Ohmachi, sócio e responsável pela área de Fundos Líquidos e Buy-Side Research da RB Asset, os fundos pós-fixados são os primeiros a sentir a queda da Selic, justamente por não terem ganhos relevantes de marcação a mercado.
“Num movimento consistente de queda da Selic, quem sente primeiro são os fundos indexados ao CDI. O carrego cai junto com a taxa e, como o papel pós-fixado praticamente não tem duration, não há ganho de marcação para compensar; o dividendo simplesmente encolhe”, afirma Ohmachi. Em contrapartida, ele explica que os fundos atrelados ao IPCA podem se beneficiar com o fechamento da curva de juros reais, mesmo em um ambiente de inflação mais baixa.
Viriato concorda que o comportamento difere entre os indexadores. “Os indexados ao CDI tendem a responder reduzindo dividendo, pois a receita acompanha mais diretamente a queda da Selic. Já os fundos atrelados ao IPCA podem apresentar ganho maior na marcação a mercado e tendem a ir melhor em um cenário de redução dos juros.”
Rankings devem ser analisados com cuidado
Os especialistas alertam que rankings de desempenho, tanto de seis quanto de doze meses, merecem análise criteriosa. Bezerra observa que fundos com retornos similares podem ter assumido níveis de risco completamente diferentes para chegar ao mesmo resultado. “Não existe um único perfil de carteira entre os fundos de melhor desempenho. Há presença tanto de estratégias mais conservadoras quanto de fundos high yield. O retorno não deve ser analisado isoladamente, porque fundos com desempenhos semelhantes podem ter chegado ao mesmo resultado com níveis de risco bastante diferentes.”
Viriato também recomenda cautela antes de usar rankings como critério de investimento. “Um semestre ou um ano podem refletir eventos não recorrentes, como vendas de ativos, distribuições extraordinárias ou mudanças pontuais de precificação. Rankings são um bom ponto de partida para estudar um fundo, mas não deveriam ser usados como critério de investimento.”
Equilíbrio entre CDI e IPCA na carteira
A escolha entre fundos indexados ao CDI e ao IPCA não deve ser excludente. Bezerra afirma que cada indexador cumpre uma função diferente. “Os fundos indexados ao CDI tendem a oferecer maior proteção em períodos de juros elevados. Já os atrelados ao IPCA oferecem proteção mais direta contra a inflação e podem ser interessantes para investidores com horizonte mais longo.”
Para Ohmachi, a construção da carteira deve considerar o objetivo do investidor e o estágio do ciclo econômico. “Montar uma carteira equilibrada entre CDI e IPCA passa menos por perseguir o vencedor recente e mais por combinar as funções de cada indexador. A decisão é menos ‘qual está rendendo mais agora’ e mais alinhar o indexador ao objetivo e ao horizonte do investidor.”
Viriato conclui que a diversificação é a estratégia mais eficiente para reduzir a dependência de um único cenário macroeconômico. “Os fundos atrelados ao CDI oferecem maior proteção em cenários de juros elevados, enquanto os indexados ao IPCA ajudam a preservar o poder de compra e tendem a se beneficiar em ciclos de queda de juros. A combinação reduz a dependência de um único cenário macroeconômico.”



