O mercado financeiro recebeu com forte ceticismo a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada nesta terça-feira. Economistas avaliam que a explicação do Banco Central para adiar o aperto monetário e o controle da inflação é pouco convincente. A expressão “justificando o injustificável” foi usada por analistas para descrever o documento, considerado confuso e contraditório.
Reação imediata do mercado
Logo após a divulgação, os juros futuros subiram e o Tesouro IPCA+ voltou a ultrapassar 8,5% ao ano, refletindo o aumento da aversão ao risco. A ata do Copom não trouxe sinais claros de que o BC está disposto a elevar a Selic no curto prazo para conter a inflação, o que frustrou investidores que esperavam uma postura mais hawkish.
“O comunicado foi confuso e não esclareceu o que o BC fará diante da piora das expectativas de inflação. Parece que o comitê está tentando ganhar tempo, mas a inflação não espera”, afirmou o economista-chefe de uma grande corretora, que preferiu não ser identificado. A ata indicou que o Copom vê riscos de alta para a inflação, mas não sinalizou alta de juros, mantendo a taxa Selic em 14,25% ao ano.
Visão dos economistas
Para a maior parte dos analistas consultados, a justificativa do BC para não iniciar um ciclo de aperto é frágil. “Eles argumentam que os efeitos das políticas anteriores ainda estão se propagando, mas isso já era esperado. O problema é que as expectativas de inflação continuam desancoradas e a atividade econômica está aquecida”, comentou um estrategista de um banco internacional.
O economista-chefe de uma gestora independente destacou que a ata parece “justificar o injustificável”, ao tentar explicar a decisão de manter os juros estáveis mesmo com a inflação corrente elevada e o mercado de trabalho apertado. “A comunicação do BC perdeu credibilidade. O mercado quer clareza, não rodeios”, disse.
Impacto nos ativos brasileiros
A reação negativa se espalhou para a Bolsa. O Ibovespa, que havia subido no pregão anterior, enfrentou pressão vendedora. O BBA avaliou que a Bolsa brasileira está barata, mas que o investidor estrangeiro não vê urgência para retornar, justamente por causa da incerteza sobre a política monetária. “Enquanto o BC não mostrar compromisso com a meta de inflação, o fluxo externo continuará fraco”, afirmou relatório do banco.
Os juros futuros de longo prazo subiram, com o contrato de DI para janeiro de 2029 alcançando 14,2%, ante 14,0% no fechamento anterior. O dólar também se valorizou, cotado a R$ 5,85, refletindo a percepção de risco fiscal e político.
Contexto e próximos passos
A ata do Copom foi divulgada em meio a um ambiente de aversão ao risco global, com temores de recessão nos Estados Unidos e desaceleração na China. Internamente, o governo Lula tem pressionado o BC por redução dos juros, mas a inflação resistente limita o espaço para afrouxamento.
O mercado agora aguarda a próxima reunião do Copom, em maio, para ver se o BC mudará de postura. Até lá, os indicadores de inflação, como o IPCA-15 e o IGP-M, serão monitorados de perto. “Se a inflação continuar surpreendendo para cima, o BC será forçado a agir, mas até lá o pessimismo deve prevalecer”, concluiu o economista.



