A italiana Pininfarina, famosa por desenhar modelos icônicos de marcas como Ferrari, Maserati e Alfa Romeo, expandiu sua atuação para o mercado imobiliário de luxo. No Brasil, a empresa já assina 34 empreendimentos, do Sul ao Nordeste. Desses, seis já foram construídos, nove estão em obras e 17 em fase de desenvolvimento.
Expansão geográfica e fascínio por branded residences
A expansão geográfica da Pininfarina pelo Brasil ilustra o fascínio dos endinheirados brasileiros pelas chamadas branded residences, projetos imobiliários associados a grandes marcas. Segundo a consultoria Savills, o Brasil é o terceiro país com mais projetos imobiliários assinados por marcas em toda a América, atrás apenas dos Estados Unidos e do México. São 25 empreendimentos concluídos e outros 50 em desenvolvimento em território nacional.
São Paulo como protagonista
A cidade de São Paulo é a protagonista desse movimento. Atualmente, 43% dos empreendimentos concluídos ou em desenvolvimento estão na capital paulista (16 concluídos e 18 em pipeline), enquanto 12% ficam no Rio de Janeiro (4 concluídos e 5 em desenvolvimento) e quase 7% em Balneário Camboriú (2 concluídos e 3 em desenvolvimento).
Pininfarina: selo de garantia e atemporalidade
Paolo Dellachà, CEO global da Pininfarina, explica que a presença da marca atua como um selo de garantia no mercado brasileiro, ajudando a mitigar riscos e acelerar as vendas. "É um selo de atemporalidade. O design pode garantir que o edifício permaneça belo e relevante por décadas. O imóvel se torna um item de colecionador", afirma.
A Pininfarina tem nove projetos em obras e 17 em fase de desenvolvimento no país. Parceira de incorporadoras como Cyrela, Plaenge, Origem e Setai Group, a empresa se consolidou à frente de empreendimentos de altíssimo luxo, com unidades que custam dezenas de milhões de reais.
Afinidade cultural com o design italiano
O interesse imobiliário pela marca é atribuído a uma afinidade cultural dos brasileiros pelo design italiano. "Vocês gostam do que nós gostamos", comenta Paolo Trevisan, vice-presidente de design da Pininfarina nas Américas. "Antes de pegarmos o lápis, estudamos a cidade em que o projeto será desenvolvido. Estudamos as origens e para onde querem ir", afirma.
Primeiro projeto no Brasil: Cyrela Heritage
O primeiro projeto da Pininfarina no Brasil foi um edifício desenhado há aproximadamente 15 anos, em São Paulo. O Cyrela Heritage, lançado pela Cyrela em meados de 2014, ficou conhecido pelas curvas da fachada e pelo uso de elementos inspirados no design automotivo da Ferrari. Recentemente, um dos apartamentos, avaliado em mais de R$ 42 milhões, esteve envolvido na negociação de Daniel Vorcaro, presidente do Banco Master, com Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB.
Expansão para outras cidades
Alheia às polêmicas, a Pininfarina continua se espalhando por outras cidades. Em Balneário Camboriú, o Yachthouse by Pininfarina, criado pela Pasqualotto & GT, ocupa o posto de prédio mais alto do país. Rio de Janeiro, Curitiba, Campinas, Campo Grande e João Pessoa também já têm edifícios que ostentam o nome da marca.
Agora, a companhia está prestes a desembarcar em Recife, capital de Pernambuco. Em um terreno de 5.357 metros quadrados, a Suassuna Fernandes lançará, no segundo semestre deste ano, um prédio de luxo com apartamentos de 166 m² a 374 m² e coberturas duplex de 748 m² e 10 vagas de garagem, sendo duas dentro do próprio apartamento. Todos os andares terão duas piscinas e o edifício virá com um elevador panorâmico para carros.
"Quando você é incorporador e escolhe uma marca, está procurando a experiência que aquela marca entrega. O design não é apenas um acessório, mas um componente central que define a desejabilidade e o sucesso econômico de um empreendimento", afirma Saulo Suassuna Filho, sócio do Grupo Suassuna Fernandes.
Criatividade na era da inteligência artificial
Em passagem por São Paulo, Paolo Dellachà conversou com o Estadão sobre o legado da companhia no país. "Não nos importamos com marketing. Somos uma marca de design e arquitetura acima de tudo. O marketing é uma consequência de criar algo belo", afirma o executivo. Ele defende que o alto custo dos empreendimentos não se sustenta apenas pela assinatura.
"O preço não é dado pela marca, mas pelo quão desejável o prédio se torna. Nossa contribuição é enriquecer o design com uma linguagem e uma pesquisa contínua da beleza. Quanto mais o que você projetou se tornar icônico, mais isso sustenta o valor", diz Dellachà.
E essa visão, segundo ele, não pode ser substituída pela inteligência artificial. O CEO da Pininfarina admite que a companhia já incorporou IA em algumas etapas do processo de criação. Porém, essa interferência não chega ao campo do design. "Tudo começa com a visão do designer, e essa visão não pode ser substituída pela IA", acredita. "Ainda precisamos muito da criatividade humana e da habilidade de criar algo novo".
Cidade com urbanismo da Pininfarina
Desde o último ano, a Pininfarina está em conversas para participar do desenvolvimento do Plano Diretor de uma cidade brasileira. A companhia não informa qual é o município interessado, mas diz que as negociações continuam.
Esta não seria a primeira iniciativa do tipo a ser liderada pela marca. Em 2022, o estúdio foi selecionado para desenhar o plano de Blue Loop, na China. Ao lado de outros três escritórios de arquitetura, a Pininfarina foi convidada pelo Governo Popular da cidade de Taozhuang para participar do desenvolvimento de uma cidade que surgirá nos arredores de Xangai.
A proposta é a criação de uma nova cidade sustentável, estruturada em torno da água, com canais navegáveis, centros de inovação e polos de energia. Até o momento, as obras do Blue Loop não começaram, mas já indicam a abertura da marca para outros segmentos além do design de automóveis, mobiliário e imóveis.
"O espaço muda o comportamento das pessoas. Em locais com elementos de arquitetura ruim, coisas ruins acontecem. Se você tiver espaços bonitos, agradáveis e confortáveis, as pessoas tendem a se comportar melhor", afirma Paolo Trevisan.



