Sabesp autorizada a aumentar captação do Paraíba do Sul para reforçar Cantareira
Sabesp amplia captação no Paraíba do Sul para Cantareira

A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) recebeu autorização para ampliar a captação de água da bacia do Rio Paraíba do Sul, que abastece o estado do Rio de Janeiro, com o objetivo de reforçar o Sistema Cantareira. A medida visa aumentar a resiliência hídrica do sistema paulista, que fornece água para cerca de 10 milhões de pessoas na região metropolitana durante o período de estiagem.

Sistema Cantareira em nível de atenção

Nesta segunda-feira, 29, o Sistema Cantareira opera com 39,9% da capacidade operacional, bem abaixo da média histórica de 55,5% para o período. O nível é considerado de atenção pelas autoridades.

A decisão de captar mais água no Paraíba do Sul foi formalizada em acordo assinado na semana passada, em Brasília, entre os três estados por onde o rio passa: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Participaram do acordo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a Agência de Águas do Estado de São Paulo (SP Águas), o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM) e o Instituto Estadual do Ambiente do Estado do Rio de Janeiro (INEA/RJ).

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Medida excepcional e temporária

A autorização tem caráter excepcional e temporário. A captação suplementar permitirá a transposição de mais água do reservatório da represa do Jaguari, no Paraíba do Sul, para o reservatório Atibainha, integrante do Sistema Cantareira.

Conforme comunicado conjunto das instituições, a medida atende a uma solicitação da Sabesp e recebeu apoio dos Comitês das Bacias Hidrográficas do Rio Paraíba do Sul, PCJ e do Alto Tietê. O objetivo é reforçar a segurança hídrica da Grande São Paulo e da região das Bacias PCJ (Piracicaba, Capivari e Jundiaí) diante da persistência das condições de estiagem e da necessidade de ampliar a resiliência do Sistema Integrado Metropolitano de abastecimento.

Nesta segunda-feira, o Sistema Integrado Metropolitano, que reúne sete grandes mananciais (Cantareira, Alto Tietê, Cotia, Guarapiranga, Rio Claro, Rio Grande e São Lourenço), operava com 52,5% do volume útil.

Volume adicional autorizado

Com a autorização, o volume anual máximo de água passível de transposição do Jaguari para o reservatório Atibainha em 2026 passa de 162 hectômetros cúbicos (hm³) para até 268,28 hm³, representando um volume suplementar de 106,28 hm³ e vazão máxima de captação de 8,5 metros cúbicos por segundo. Cada hectômetro equivale a 1 bilhão de litros. A autorização tem validade até 31 de dezembro de 2026.

Condições para a autorização

O aumento da cota de transposição será automaticamente suspenso caso o Sistema Cantareira opere acima de 60% de seu volume útil ou caso a Sabesp passe a utilizar a vazão média mensal de retirada de forma não restrita, ou seja, sem cumprir metas de economia de água.

Atualmente, o Sistema Cantareira opera na faixa 2, mas com volume útil abaixo do determinado para a faixa. Caso permaneça abaixo de 40% até 30 de junho, passará a operar na faixa 3, de alerta. Nessa faixa, a autorização de captação no Cantareira cai de 31 metros cúbicos por segundo para 27 m³/s.

Caberá à Sabesp adotar todas as medidas necessárias para mitigar eventuais impactos decorrentes da redução dos níveis dos reservatórios das usinas hidrelétricas de Jaguari, Santa Branca, Paraibuna e Funil, todos na bacia do Paraíba do Sul.

Além disso, permanecem assegurados os limites mínimos de vazão a jusante do barramento de Santa Cecília, garantindo 71 m³/s de defluência mínima instantânea e 119 m³/s de bombeamento para o rio Guandu. O Guandu é o principal manancial de abastecimento da região metropolitana do Rio de Janeiro, levando água às torneiras de 9 milhões de pessoas.

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Busca de alternativas e estudos

Além da autorização para o aumento da transposição, os órgãos gestores aprovaram, até dezembro de 2027, ajustes temporários nas regras de operação de alguns reservatórios do Sistema Hidráulico Paraíba do Sul. As medidas ampliam a flexibilidade para a gestão dos reservatórios e serão acompanhadas pelo Grupo de Assessoramento à Operação do Sistema Hidráulico Paraíba do Sul, que ficará responsável por estabelecer gatilhos e definir a adoção de medidas operativas adicionais em caso de aproximação ou eventual ultrapassagem da curva de segurança de armazenamento para operação normal.

Também ficou estabelecido que as agências e o Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul continuarão desenvolvendo estudos para avaliar os impactos da captação suplementar e identificar alternativas que aumentem a oferta de água nas bacias dos rios Paraíba do Sul, Piracicaba e Alto Tietê.

Retrospecto de crises hídricas

A ampliação da cota de transposição já foi adotada em situações excepcionais de escassez hídrica. Em 2021, durante a crise hídrica que atingiu o Sudeste, o limite anual de transposição foi elevado de 162 hm³ para até 202 hm³. Já em 2025, diante da persistência das condições de estiagem, os órgãos gestores aprovaram novo aumento temporário da cota anual para até 186,7 hm³, correspondente a um volume suplementar de 24,7 hm³.

Anteriormente, na crise hídrica de 2014, os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro protagonizaram uma disputa por água para abastecimento, envolvendo também Minas Gerais. Na época, com o Sistema Cantareira quase sem água devido a uma estiagem histórica, o governo paulista propôs construir um sistema de captação para transpor águas da bacia do Paraíba do Sul para o Cantareira. O governo do Rio de Janeiro reagiu fortemente, argumentando que a medida ameaçaria o abastecimento da população e a geração de energia no estado, além de violar regras de uso compartilhado dos rios. O governo mineiro apoiou o protesto. A disputa gerou uma crise política, mas foi encerrada em agosto de 2014 com a mediação do governo federal, que estabeleceu um acordo judicial com regras para o volume de água que poderia ser retirado e liberado para os reservatórios paulistas, através do sistema Jaguari-Atibainha.