O petróleo tipo Brent, referência internacional, registrou uma queda de 8,2% nesta terça-feira, cotado a US$ 72,50 o barril, o menor nível em seis meses. O movimento brusco contaminou o apetite por risco nos mercados financeiros globais, derrubando bolsas, moedas de países emergentes e outras commodities.
Razões para a queda acentuada
O tombo veio após rumores de que a Arábia Saudita estaria preparando um aumento de produção para compensar cortes anteriores, enquanto indicadores econômicos fracos na China e nos Estados Unidos reforçaram os temores de uma recessão global. O Departamento de Energia dos EUA também revisou para baixo sua previsão de demanda por petróleo para 2026, pressionando ainda mais os preços.
De acordo com analistas do Bank of America, o cenário de excesso de oferta pode se intensificar se a Opep+ decidir flexibilizar os cortes voluntários na reunião de agosto. "O mercado está precificando uma tempestade perfeita: crescimento lento, juros altos e oferta abundante", afirmou o estrategista-chefe do banco, em nota a clientes.
Contágio nos mercados financeiros
O índice S&P 500 caiu 1,5%, com destaque para as ações do setor de energia, que recuaram mais de 3%. No Brasil, o Ibovespa fechou em baixa de 1,8%, pressionado por Petrobras (ON -4,5%) e Vale (ON -2,3%). O dólar subiu 1,2% ante o real, cotado a R$ 5,40, refletindo a aversão ao risco.
Moedas de outros emergentes, como o peso mexicano e o rand sul-africano, também sofreram desvalorização. O índice de volatilidade VIX, conhecido como "índice do medo", saltou 15%, para 28 pontos, maior nível desde março.
Segmentos considerados mais seguros, como títulos do Tesouro americano e ouro, atraíram fluxos de capital. O rendimento da T-note de 10 anos caiu para 3,95%, enquanto o ouro subiu 0,6%, para US$ 1.950 a onça.
Perspectivas incertas
Para analistas, o petróleo pode continuar volátil enquanto não houver clareza sobre a decisão da Opep+ e os próximos dados de inflação nos EUA. "O movimento de hoje foi um alerta. Se a demanda continuar enfraquecendo e a oferta aumentar, podemos ver o Brent testar US$ 70", disse o head de commodities de um grande banco europeu, em entrevista à Valor.
No mercado de opções, as apostas em novas quedas superam as de alta, com a relação put/call atingindo o maior patamar do ano. Isso sugere que os investidores ainda não veem um piso para o petróleo no curto prazo.
O ministro de Energia da Arábia Saudita deve se pronunciar nos próximos dias, o que pode trazer alívio ou mais pressão. Até lá, os ativos de risco devem continuar sob tensão.
A queda do petróleo tem efeitos ambivalentes: reduz custos de transporte e matérias-primas para países importadores, mas aprofunda a crise fiscal de nações exportadoras e sinaliza desaceleração econômica global. O Fundo Monetário Internacional (FMI) já alertou que uma desaceleração mais forte pode reduzir o crescimento mundial em até 0,5 ponto percentual neste ano.



