O fenômeno El Niño, caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Pacífico Equatorial, não causa diretamente cada evento climático extremo, mas tem o poder de alterar padrões de chuva, temperatura e seca, elevando a probabilidade de ocorrências severas em regiões específicas do Brasil. Para o mercado de seguros residenciais, isso se traduz em maior exposição a riscos como alagamentos, enchentes, vendavais, destelhamentos, queda de árvores, danos elétricos e, em áreas de encosta, deslizamentos e desmoronamentos.
Impactos regionais do El Niño no Brasil
Os efeitos do El Niño variam conforme a região e as características de cada episódio. De acordo com Pedro Luiz Valls, pesquisador do Centro de Estudos em Riscos Climáticos e Resiliência da FGV, o El Niño está geralmente associado a maior risco de seca no Norte e em parte do Nordeste e a maior propensão a chuvas volumosas no Sul do país. Essa variação regional exige que seguradoras e consumidores estejam atentos aos perigos específicos de cada localidade.
Consequências financeiras para o mercado segurador
A ocorrência de eventos severos pode aumentar tanto a quantidade quanto o valor das indenizações pagas pelas seguradoras. Cristiane Junqueiro, head interina de Novos Negócios da Simple2u, que atua no segmento de seguros, destaca que o impacto não se limita ao número de sinistros – a concretização do risco previsto no contrato de seguro. "Tempestades mais intensas e chuvas concentradas tendem a causar danos mais extensos e, consequentemente, indenizações de maior valor", afirma.
A magnitude das perdas pode ser dimensionada por eventos recentes. Segundo dados da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), as solicitações de indenizações decorrentes das fortes chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 ultrapassaram os R$ 6 bilhões. Em termos de volume, foram registradas 29,7 mil solicitações de seguro residencial e habitacional. "Esses números não devem ser interpretados como efeito exclusivo do El Niño, mas mostram a escala financeira que eventos extremos podem assumir para o mercado segurador", explica Valls.
Cobertura do seguro residencial: o que está realmente protegido?
Um ponto crucial para o consumidor é que contratar um seguro residencial não garante automaticamente proteção contra todos os danos causados por chuvas intensas e outros eventos extremos. A cobertura básica geralmente protege contra riscos tradicionais, como incêndio, queda de raio e explosão. Já enchentes, alagamentos, vendavais, granizo, danos elétricos e desmoronamentos podem depender de coberturas adicionais, limites específicos e condições previstas na apólice. "A cobertura exata depende do contrato. Muitas pessoas imaginam que todo seguro residencial cobre enchente, mas essa proteção pode depender de contratação específica ou de cláusulas adicionais. Por isso, é essencial ler a apólice e verificar se há cobertura para inundação, alagamento, vendaval, granizo e desmoronamento", alerta Valls.
Junqueiro complementa que a cobertura para alagamentos está disponível no mercado por meio de coberturas adicionais, mas ressalta diferenças entre seguradoras em relação a desmoronamento e movimentação de solo. "O principal desafio do mercado hoje não está na existência dessas coberturas, mas na conscientização dos consumidores sobre sua importância e adequação aos riscos específicos de cada região", observa.
Reavaliação de apólices em regiões de maior risco
Quando uma região passa a registrar maior frequência de eventos extremos, as seguradoras podem reavaliar os riscos assumidos. Medidas possíveis incluem alterações nos prêmios – valor pago pelo cliente para contratar o seguro –, nas franquias – valor desembolsado para acionar a cobertura – e nos limites de indenização, além da exigência de medidas preventivas e de restrições na aceitação de determinados riscos. "O seguro é precificado com base na análise da probabilidade e da severidade das perdas. Por isso, quando determinadas regiões passam a registrar maior recorrência de eventos extremos, os modelos atuariais tendem a incorporar essas novas evidências ao longo do tempo", acrescenta Junqueiro.
Segundo ela, isso não implica necessariamente um aumento imediato do preço do seguro após um evento climático específico, mas uma reavaliação gradual dos parâmetros de análise, precificação e aceitação dos riscos. Valls adverte: "Se o risco aumenta muito e não há investimento em drenagem, infraestrutura, prevenção e ordenamento urbano, o seguro pode ficar mais caro ou menos disponível justamente para as regiões que mais precisam de proteção".
Desafios operacionais para as seguradoras
Eventos climáticos severos representam um desafio operacional significativo para as seguradoras, pois podem provocar muitas perdas simultaneamente em uma mesma região. "As seguradoras trabalham com provisões técnicas, resseguro, diversificação geográfica, modelos de catástrofe e planos operacionais de atendimento emergencial. O desafio dos eventos climáticos severos é que eles geram sinistros correlacionados: muitas perdas acontecem ao mesmo tempo, na mesma região e pelo mesmo fator climático", explica Valls.
Após um evento de grande magnitude, a estrutura de atendimento pode ser reforçada com mais equipes de regulação – processo em que a seguradora verifica os fatos, confirma a cobertura e calcula o prejuízo –, ampliação de canais digitais e priorização de casos urgentes, conclui Junqueiro. Para os consumidores, a principal recomendação é revisar a apólice e considerar coberturas adicionais conforme os riscos da região.



