Os cortes forçados de geração de energia elétrica no Brasil, conhecidos como 'curtailment', custaram R$ 6,5 bilhões ao setor nos últimos anos, mas o prejuízo não é distribuído de forma homogênea entre os geradores. A conclusão é de um estudo inédito realizado pela Pressworks, consultoria especializada no setor elétrico, que analisou dados de 2019 a 2025.
Desigualdade nos impactos
Segundo o levantamento, as usinas eólicas e solares foram as mais afetadas, concentrando 85% das perdas financeiras. As hidrelétricas, por outro lado, tiveram impacto menor, com cerca de 10% do total. 'Os cortes atingem principalmente as fontes intermitentes, que dependem de condições climáticas e têm menos flexibilidade operacional', explica Carlos Eduardo de Oliveira, diretor da Pressworks.
O estudo aponta que a região Nordeste responde por 70% dos cortes, devido à alta concentração de parques eólicos e solares. Já o Sudeste registrou apenas 15% dos cortes, beneficiado pela diversidade de fontes e pela capacidade de armazenamento das hidrelétricas.
R$ 6,5 bilhões de prejuízo
O valor total de R$ 6,5 bilhões representa a remuneração que os geradores deixaram de receber por energia não produzida. 'Esse montante equivale a cerca de 3% da receita total do setor no período', destaca Oliveira. Os cortes ocorrem quando a geração supera a demanda ou a capacidade de escoamento da transmissão, obrigando o Operador Nacional do Sistema (ONS) a reduzir a produção de usinas.
A Pressworks estima que, sem investimentos em transmissão e armazenamento, os cortes podem aumentar 50% até 2030, elevando o prejuízo acumulado para R$ 15 bilhões. 'É urgente expandir linhas de transmissão e incentivar sistemas de armazenamento, como baterias, para evitar desperdícios', afirma o diretor.
Custos repassados ao consumidor
Parte dos prejuízos é repassada aos consumidores por meio de encargos tarifários. De acordo com o estudo, os cortes elevaram a tarifa de energia em 0,5% no período analisado. 'Embora pareça pequeno, esse impacto pode crescer se os cortes se intensificarem', alerta Oliveira.
O governo federal já anunciou medidas para mitigar o problema, como a realização de leilões de transmissão e a criação de um programa de armazenamento de energia. No entanto, especialistas avaliam que as ações ainda são insuficientes diante da rápida expansão das renováveis.
Perspectivas para o setor
O estudo da Pressworks conclui que a desigualdade nos prejuízos pode desestimular investimentos em fontes limpas. 'Se os cortes continuarem concentrados em eólicas e solares, os investidores podem migrar para fontes mais estáveis, atrasando a transição energética', pondera Oliveira.
Para reverter esse cenário, a consultoria recomenda a modernização da rede elétrica, com adoção de tecnologias de smart grid e maior integração regional. 'O Brasil tem potencial para liderar a energia limpa, mas precisa resolver o gargalo da transmissão e do armazenamento', conclui.



