A SpaceX, empresa de exploração espacial de Elon Musk, está prestes a realizar sua estreia no mercado de títulos de dívida com uma emissão estimada entre US$ 20 bilhões e US$ 25 bilhões, marcando um movimento ousado para uma companhia que ainda apresenta fluxo de caixa livre persistentemente negativo. A operação, coordenada por Bank of America, Citigroup, Goldman Sachs, JPMorgan e Morgan Stanley, já atraiu cerca de US$ 30 bilhões em ordens de investidores antes mesmo do lançamento formal, segundo fontes próximas ao assunto.
Nota de crédito surpreendente
Na semana passada, a agência de classificação de risco Moody's atribuiu à SpaceX a nota Baa1, dentro do grau de investimento, mesmo diante de um histórico financeiro público limitado e da perspectiva de anos de investimentos pesados. A mesma nota foi dada à Nvidia há quase dez anos, quando a fabricante de chips já contava com mais de US$ 1 bilhão em fluxo de caixa livre. A S&P Global Ratings, por sua vez, concedeu à SpaceX um rating BBB, um degrau abaixo do da Moody's.
De acordo com a S&P, espera-se que a SpaceX mantenha fluxo de caixa negativo até 2030, com a queima de caixa se acelerando em 2025 e novamente em 2028. Para cobrir esse rombo, a empresa deverá aumentar seu endividamento para US$ 132 bilhões em 2028, ante um nível próximo de zero atualmente, após ajustes por caixa e passivos de arrendamento.
Confiança do mercado de crédito
O rating de grau de investimento reflete a confiança do mercado de crédito nos planos ambiciosos de Musk, que incluem foguetes reutilizáveis, a rede de satélites Starlink, inteligência artificial e até data centers no espaço. "Do lado das ações, isso pode ser uma oportunidade fenomenal nos próximos 10 ou 20 anos", afirmou Sal Naro, diretor de investimentos da Coherence Credit Strategies. "Na renda fixa, parece que as agências estão sendo bastante generosas ao olhar para eventos que ainda devem acontecer no curto ou médio prazo."
Para as agências de rating, a tese se sustenta na liderança da SpaceX no mercado de lançamentos, seu papel central no programa espacial dos EUA, a receita recorrente da Starlink e a liquidez para bancar a expansão em IA. No entanto, a empresa não reúne características clássicas de um emissor de alta qualidade, como fluxo de caixa previsível e dívida controlada.
Emissão de títulos e riscos
A SpaceX está emitindo cinco tranches de títulos, com vencimentos entre cinco e 30 anos. Os papéis mais longos oferecem um prêmio de cerca de dois pontos percentuais sobre os Treasuries dos EUA. Os recursos serão usados para refinanciar uma linha-ponte de US$ 20 bilhões e cobrir outras despesas corporativas.
Ross Pamphilon, diretor de investimentos em renda fixa da Impax Asset Management, descreveu a operação como um "salto de fé". "Do jeito que vemos, é uma empresa com fluxo de caixa livre profundamente negativo, somada à forte queima de caixa em IA da xAI, ao lado de uma franquia muito forte em satélites, que é a Starlink", disse Pamphilon, que avalia participar da emissão.
Queda das ações e apelo do crédito
As ações da SpaceX caíram desde o IPO, eliminando mais de US$ 600 bilhões em valor de mercado e aumentando o escrutínio sobre a almofada de capital disponível para os credores. Apesar disso, muitos investidores de crédito ainda veem apelo na empresa, que mantém uma capitalização de mercado em torno de US$ 2 trilhões e um negócio de lançamentos com poucos concorrentes.
John Lloyd, chefe global de crédito multissetorial da Janus Henderson Investors, destacou que grande parte dos gastos de curto prazo está direcionada a projetos que devem começar a gerar retorno rapidamente. Se Musk "entregar 75% do que se propõe a fazer, isso pode levar a melhora de rating ao longo do tempo, e a empresa pode acabar se parecendo muito mais com uma das hyperscalers", afirmou.
Representantes de Moody's, S&P, Fitch e da SpaceX não comentaram o assunto além dos comunicados oficiais.



