Polen Capital perde US$ 50 bilhões ao ignorar Nvidia
Foi o exato oposto da operação mais quente de Wall Street. A Polen Capital fez justamente isso — e mais — ao desprezar a Nvidia, a estrela em alta dos chips de inteligência artificial, e apostar na Adobe, uma das empresas mais pressionadas pela disrupção da IA. Só que a gestora demorou demais para rever a tese. Agora, seus executivos tentam conter os danos.
Sediada em Boca Raton, na Flórida, a Polen não está na lista das gigantes do setor. Mas a gestora, com quase meio século de história, virou um exemplo claro de como ficar de fora de um grande vencedor pode mudar o destino de uma casa de investimentos em meio ao boom da IA. Em apenas quatro anos, seus ativos encolheram 60%, ou quase US$ 50 bilhões. Hoje, somam cerca de US$ 33 bilhões.
A disputa por posições ligadas à IA só aumenta para investidores de todos os tipos. Agora que a SpaceX abriu capital, Anthropic e OpenAI caminham para ofertas públicas gigantescas. Os riscos também cresceram nos mercados privados, onde gestores de ativos alternativos fizeram apostas pesadas em empresas de software que agora levantam dúvidas entre investidores sobre o potencial de serem atropeladas pela IA.
“Essa mudança é maior do que a mobilidade, maior do que a bolha da internet”, disse Eric Jackson, fundador da EMJ Capital e investidor de tecnologia de longa data, sobre as oportunidades em IA. “Quem tenta olhar para isso com a lente de investidor de valor e analisar essas ações está perdendo o ponto.”
Transformação e queda
Stan Moss, contador de formação, virou CEO da Polen em 2012, após a morte do fundador David Polen. Pessoas de dentro da gestora atribuem a ele e aos dois principais responsáveis pela estratégia flagship, Dan Davidowitz e Damon Ficklin, o mérito por transformar inicialmente a casa de uma operação pequena e sonolenta em uma máquina vibrante de geração de receita. Ainda assim, a gestora continua muito maior do que era quando eles assumiram, quando administrava cerca de US$ 2 bilhões.
Mas errar feio na Polen pode custar caro. Seus seis fundos mútuos de ações costumam comprar e manter por bastante tempo um número relativamente pequeno de ações de crescimento. O principal deles, o Polen Growth Fund, tem menos de 30 papéis. Em vez de comprar Nvidia, o fundo preferiu manter posição em empresas de software como Adobe, Salesforce e ServiceNow.
“Acreditamos que praticamente todas as oportunidades de valorização que conseguimos enxergar hoje para a empresa já estão refletidas no preço”, escreveu a Polen a seus clientes em junho de 2023, referindo-se à Nvidia. Desde então, a ação disparou quase 400%. Já o índice BVP Nasdaq Emerging Cloud, que acompanha empresas emergentes focadas principalmente em software baseado em nuvem, caiu 3% no mesmo período.
O resultado parece um pesadelo para qualquer gestor que se proponha a escolher ações vencedoras. Hoje, os investimentos do fundo flagship estão 45% abaixo do pico de 2021, apesar da histórica alta do mercado. Seus ativos caíram de cerca de US$ 14 bilhões para menos de US$ 2 bilhões — uma retração de quase 86%, segundo dados compilados pela Bloomberg.
O fundo aparece em modestíssimo 243º lugar entre 249 produtos semelhantes, mostram dados da Morningstar até o fim de abril. O Morgan Stanley, que por anos recomendou uma versão da estratégia do fundo para clientes de sua área de gestão de patrimônio, retirou o produto da lista de preferidos.
Expansão e consequências
A Polen concentra a maior parte de seus ativos em mandatos privados, para os quais não há dados disponíveis. Por isso, o fundo de crescimento dá apenas uma amostra da queda dos ativos totais sob gestão da casa. Esses números também não incluem parte dos recursos administrados em estratégias de crédito ou pelas unidades do Reino Unido e de Hong Kong, que têm ficado relativamente estáveis nos últimos anos. Após algumas mudanças no último ano, as maiores posições do Polen Growth Fund em março eram Microsoft, Eli Lilly e Broadcom.
Os danos seguem se acumulando. Clientes foram embora, assim como uma série de executivos seniores, segundo entrevistas com uma dúzia de ex-funcionários e pessoas familiarizadas com a Polen Capital. Entre as saídas recentes estão o diretor de operações, o diretor de compliance, o chefe de finanças internacionais e o chefe de atendimento a clientes, de acordo com seus perfis no LinkedIn. Nos últimos dois anos, Moss eliminou cerca de 100 vagas, ou aproximadamente metade da força de trabalho, disseram algumas dessas pessoas, que pediram anonimato por se tratar de informações privadas.
Moss recusou pedido de entrevista para esta reportagem, assim como Ficklin e Davidowitz. Em nota enviada à Bloomberg, o CEO defendeu a Polen e suas equipes de investimento “autônomas”.
“Embora a estratégia Focus Growth, administrada por nossa equipe de Quality Growth, tenha enfrentado ventos contrários comuns entre gestores focados em growth de qualidade, seguimos convictos em uma filosofia que entregou retornos anualizados de dois dígitos no longo prazo — assim como em uma cultura que continua atraindo talentos de primeira linha em investimentos”, disse Moss.
Quando Moss chegou, a Polen oferecia apenas uma estratégia de investimento, a focus growth, replicada em mandatos segregados e no fundo principal. Ele ampliou o número de produtos para vários fundos de ações e contas administradas separadamente, e depois montou operações de crédito e de obrigações de empréstimos colateralizadas (CLOs). O dinheiro entrou em massa. Os ativos dispararam para quase US$ 83 bilhões no fim de 2021.
A força de vendas da Polen, porém, começou a ficar nervosa. Clientes perguntavam se a gestora algum dia iria rever sua posição sobre a Nvidia, segundo várias pessoas a par do assunto. Reunião após reunião, a resposta era não. Em 2023, os clientes começaram a sair.
O comando do topo permaneceu inabalável. O principal gestor de portfólio, Davidowitz, e Ficklin, que lidera a equipe de quality growth, insistiam que o modelo de software como serviço baseado em nuvem, ou SaaS, iria resistir e prosperar. A febre do mercado com IA e Nvidia, diziam repetidamente, acabaria esfriando em algum momento. (Moss não integra o comitê de investimentos nem participa das decisões de alocação.)
“Vocês vão ter de descobrir quando descer do trem da Nvidia”, disse Davidowitz a investidores em uma apresentação em vídeo em junho de 2024.
Pessoas próximas à Polen Capital dizem que é difícil contrariar os três homens no topo. Juntos, Moss, Davidowitz e Ficklin têm a palavra final sobre todas as decisões de negócios da firma, que em grande parte pertence aos próprios funcionários.
Só no fim de 2025 — depois de a Nvidia já ter gerado fortunas para outros investidores — a Polen cedeu. Ao concluir que suas previsões pessimistas sobre chips de IA estavam erradas, a gestora finalmente começou a comprar o papel.
Mesmo depois dos problemas, a rotina seguiu quase normal. Hoje, a Polen tem escritórios em Londres, Hong Kong e Abu Dhabi, além de duas unidades na região de Boston. Por volta de 2021, Moss entrou em modo de expansão. Desde então, a Polen adquiriu uma série de fundos da Somerset Capital, boutique de mercados emergentes sediada em Londres e cofundada por Jacob Rees-Mogg, ex-deputado conservador britânico; da gestora de crédito DDJ Capital Management, de Boston; e duas equipes de ações da LGM Investments, com escritórios em Hong Kong e Londres. Só no ano passado, já com investidores saindo, a firma adicionou uma equipe liderada por Drew Cupps, especialista em small caps, para um escritório em Chicago.
Alguns funcionários da Polen questionaram a expansão acelerada, assim como uma cara reforma na sede de Boca Raton. Outros ficaram desconfortáveis quando Moss comprou, em 2023, uma casa à beira-mar em Boca Raton por US$ 11 milhões, ao mesmo tempo em que os clientes retiravam recursos.
Nos tempos bons, o pequeno número de fundos da Polen batia recordes sucessivos e atraía dinheiro de investidores pessoa física e institucionais. De segunda a sexta, os funcionários almoçavam de graça. Para descontrair, a empresa promovia leituras de livros no escritório e clubes do livro.
O almoço continua grátis, e os clubes do livro seguem acontecendo. Um dos títulos que Moss, Davidowitz e Ficklin já recomendaram: “O ego é seu inimigo”, de Ryan Holiday — um livro de autoajuda sobre como uma crença exagerada na própria importância costuma atrapalhar o sucesso.



