O iFood e o Rappi estão ampliando a disputa para além do delivery de refeições. As plataformas passaram a investir em serviços financeiros, publicidade digital e logística para o varejo, num movimento que busca novas fontes de receita diante da desaceleração do setor de entregas. A estratégia, segundo apuração do Valor, ganhou força nos últimos meses com a criação de áreas dedicadas e parcerias com instituições financeiras e redes de varejo.
Serviços financeiros viram novo campo de disputa
O segmento financeiro é a frente mais estruturada. O iFood e o Rappi oferecem soluções de crédito e pagamento tanto para os consumidores finais quanto para os restaurantes e entregadores cadastrados. No caso dos estabelecimentos, a antecipação de repasses e o microcrédito são os produtos mais procurados, já que permitem ao lojista melhorar o fluxo de caixa. Para o usuário, as opções incluem carteiras digitais e a possibilidade de parcelamento de pedidos.
Essas iniciativas colocam as plataformas em rota de colisão direta com bancos tradicionais e fintechs. O movimento é visto por especialistas como natural, uma vez que as empresas já detêm uma vasta base de dados sobre hábitos de consumo e um relacionamento frequente com o cliente. Segundo analistas ouvidos pelo Valor, quem controla a interface com o consumidor tem um potencial enorme para ofertar produtos financeiros com custo de aquisição menor.
Publicidade cresce com a força dos pedidos
Outra frente que ganha relevância é o chamado retail media, ou publicidade dentro das plataformas. O iFood já vende espaços para marcas e restaurantes aparecerem com mais destaque no aplicativo, e o Rappi tem replicado o modelo em outros países da América Latina. A aposta é que a publicidade se torne uma das principais margens de lucro do setor, já que não depende do volume de entregas para gerar receita.
Os anunciantes são atraídos pela possibilidade de alcançar um público no momento exato da decisão de compra. As plataformas, por sua vez, oferecem medição de resultados e segmentação por comportamento, algo que aproxima o modelo de negócios de uma empresa de tecnologia, e não apenas de entregas. A publicidade dentro do aplicativo também beneficia os restaurantes, que conseguem aumentar a visibilidade sem depender apenas do ranking de buscas.
Logística para o varejo amplia o alcance
A logística é a terceira frente de expansão. As empresas de delivery estão usando suas frotas de entregadores para atender também redes de supermercados, farmácias e lojas de conveniência. O movimento aproveita a malha logística já estruturada nas grandes cidades e a capilaridade das operações. No modelo atual, o consumidor pode receber alimentos, bebidas e itens de farmácia em poucos minutos, um serviço que antes era exclusivo de restaurantes.
Para os varejistas, a vantagem é não precisar investir em uma operação própria de entregas rápidas. As plataformas, por outro lado, ganham um novo fluxo de pedidos fora dos horários de pico dos restaurantes, o que aumenta a eficiência dos entregadores e reduz o custo por pedido. Especialistas apontam que essa integração entre comida e varejo tende a se aprofundar, com a criação de centros de distribuição compartilhados e túneis de entrega.
Disputa acirrada e novas receitas
A expansão para além do delivery ocorre em um momento em que o crescimento do setor dá sinais de acomodação. Após o boom impulsionado pela pandemia, as empresas passaram a buscar formas de rentabilizar a base de usuários existente em vez de apenas conquistar novos clientes. As plataformas também enfrentam pressão de custos com a manutenção de frotas e a necessidade de oferecer benefícios para reter entregadores.
Nesse cenário, a diversificação é tratada internamente como uma questão de sobrevivência. As empresas não revelam a receita de cada nova frente separadamente, mas indicam que a participação desses segmentos no faturamento total deve crescer de forma consistente nos próximos trimestres. A tendência, segundo executivos do setor, é que a disputa não se limite mais à velocidade da entrega, mas sim ao ecossistema de serviços oferecido dentro de cada aplicativo.



