Grandes grupos empresariais brasileiros estão passando por uma profunda reestruturação, abandonando o modelo tradicional de conglomerado industrial para se transformarem em holdings de investimento. A mudança, que já atinge nomes como Votorantim, Camargo Corrêa e Queiroz Galvão, reflete a busca por maior eficiência, flexibilidade e acesso a capital em um cenário de juros altos e baixo crescimento.
O que está mudando?
Em vez de controlar diretamente operações industriais, essas novas holdings passam a deter participações em diferentes empresas, com foco em retorno sobre o capital investido. A Votorantim, por exemplo, criou a Votorantim S.A., que reúne seus negócios em alumínio, cimento, energia e finanças, mas com uma estrutura mais enxuta e voltada para a gestão de portfólio. Segundo a empresa, a reorganização permitiu reduzir custos operacionais em 15% e melhorar a alocação de capital.
Por que a mudança?
O movimento é impulsionado por vários fatores. A economia brasileira, com crescimento médio de apenas 1,5% ao ano na última década, torna difícil sustentar operações industriais verticalizadas. Juros altos, com a Selic em 13,75%, encarecem o financiamento. Além disso, a abertura comercial e a concorrência global pressionam margens. "O modelo de holding permite que as empresas se desfaçam de ativos não estratégicos mais rapidamente e invistam em setores com maior potencial", afirma Carlos Eduardo de Paula, sócio da consultoria McKinsey.
Impactos no mercado
As holdings também atraem mais investidores. A Camargo Corrêa, que se transformou em holding em 2022, viu suas ações valorizarem 30% no primeiro ano, segundo dados da B3. A Queiroz Galvão, por sua vez, criou a holding QG Participações, que hoje controla negócios em construção, energia e óleo e gás. A reestruturação permitiu à empresa reduzir sua dívida líquida em R$ 2 bilhões.
Especialistas apontam que a tendência deve se acelerar. Um levantamento da PwC mostra que, desde 2020, 40 grandes grupos brasileiros adotaram estruturas de holding, movimentando mais de R$ 100 bilhões em ativos. "É uma resposta necessária à nova realidade econômica", diz Maria Silvia Bastos, economista da FGV.
Desafios e críticas
Apesar dos benefícios, a transformação não é isenta de riscos. Críticos apontam que holdings podem se tornar meras gestoras de portfólio, perdendo o foco operacional. "Há o perigo de se priorizar o curto prazo em detrimento de investimentos de longo prazo na indústria", alerta João Carlos Ferraz, do BNDES. Além disso, a reestruturação muitas vezes envolve demissões e fechamento de fábricas, gerando impacto social.
No entanto, para a maioria dos grupos, a mudança é vista como inevitável. "A velha indústria, com suas estruturas pesadas e hierarquias rígidas, não sobrevive mais", conclui Paula. As novas holdings representam uma adaptação ao capitalismo moderno, onde agilidade e foco em valor ao acionista são fundamentais.



