O risco de crédito das grandes empresas de tecnologia, como Alphabet, Amazon, Apple, Meta e Microsoft, disparou nos últimos meses impulsionado pelos gastos bilionários em inteligência artificial (IA). Segundo relatório da agência de classificação de risco Moody's, o endividamento combinado dessas companhias cresceu 35% no primeiro semestre de 2026, atingindo o maior patamar da história.
Investimentos agressivos em IA pressionam balanços
As big techs estão em uma corrida para construir data centers, adquirir chips especializados e desenvolver modelos de IA generativa. A Microsoft, por exemplo, anunciou investimentos de US$ 80 bilhões somente neste ano, enquanto a Meta planeja gastar US$ 65 bilhões. Esses aportes, embora promissores para o crescimento futuro, elevam a alavancagem financeira e reduzem a geração de caixa livre.
“O nível de gastos é sem precedentes e está pressionando as classificações de crédito dessas empresas, que historicamente tinham perfis conservadores”, afirmou Richard Lane, analista sênior da Moody's. A agência rebaixou a perspectiva da dívida de longo prazo de três das cinco gigantes para “negativa”, sinalizando possível downgrade nos próximos 12 a 18 meses.
Dívida total ultrapassa US$ 1 trilhão
De acordo com o relatório, a dívida líquida combinada das cinco empresas superou US$ 1,1 trilhão em junho de 2026, ante US$ 800 bilhões no mesmo período de 2025. O aumento foi puxado principalmente por emissões de títulos corporativos para financiar capex. A relação dívida líquida/EBITDA, métrica chave de risco, saltou de 0,8 vez para 1,4 vez, o maior nível desde a bolha das pontocom.
O mercado já precifica esse risco. Os CDS (credit default swaps) das big techs subiram 80 pontos-base em média nos últimos seis meses, segundo dados da S&P Global. Para a Alphabet, o prêmio disparou de 30 para 95 pontos-base; para a Meta, de 45 para 140.
Receitas crescentes, mas fluxo de caixa encolhe
Apesar de as receitas continuarem crescendo – impulsionadas por nuvem, publicidade e assinaturas –, o fluxo de caixa livre caiu 22% no primeiro semestre de 2026 em relação ao ano anterior, reflexo do aumento das despesas de capital. “O desafio é que o retorno sobre esses investimentos em IA leva anos para se materializar, enquanto os custos são imediatos”, explicou a analista do Bank of America, Jessica Chen.
As big techs estão apostando que a IA revolucionará seus negócios, maso custo de curto prazo eleva a vulnerabilidade a um eventual aperto de crédito ou desaceleração econômica.
Impacto no mercado e nos investidores
O aumento do risco de crédito já afeta o custo de captação. A Microsoft, por exemplo, emitiu títulos de 10 anos em julho com cupom de 4,75%, ante 3,25% em janeiro. Para o investidor, isso significa maior volatilidade nas ações do setor: o índice Nasdaq 100 caiu 12% desde o pico de março, em parte pelo temor de que os gastos com IA não gerem retorno esperado.
“Estamos vendo uma correção natural. O mercado está reprecificando o risco das big techs, que antes eram vistas como portos seguros”, disse o gestor de fundos da BlackRock, Thomas Rivera. Ele recomenda cautela, mas lembra que “essas empresas têm caixa robusto e capacidade de gerar lucros, mesmo com a alavancagem atual”.



