Valuation atrativo, mas catalisadores fracos
Os estrategistas do Itaú BBA Daniel Gewehr, Matheus Marques e Raphael Matutani resumiram suas recentes conversas com investidores institucionais sobre ações brasileiras, destacando a "falta de urgência" para o retorno dos estrangeiros. Após a queda recente, com o Ibovespa recuando para cerca de 170 mil pontos depois de encostar nos 200 mil pontos, o valuation da Bolsa brasileira é considerado atrativo, mas os catalisadores estão fracos demais para reverter a tendência de curto prazo.
"Os investidores concordam amplamente que as ações brasileiras retornaram a níveis atraentes, com o Ibovespa sendo negociado cerca de 20% abaixo de seu múltiplo de preço sobre lucro (P/L) histórico. No entanto, isso não foi suficiente para impulsionar uma reavaliação no curto prazo", apontam os estrategistas.
Principais entraves e riscos
Para os investidores, o principal entrave continua sendo a falta de catalisadores, juntamente com riscos persistentes de queda nos lucros devido à incerteza macroeconômica – particularmente em torno da dinâmica fiscal e do ritmo de flexibilização monetária. Isso é visível até mesmo em setores de qualidade, como financeiro e utilities, onde os valuations estão descontados, mas a convicção para aumentar o risco permanece limitada.
Na visão dos estrategistas do BBA, o valuation continua sendo o pilar mais forte da análise, favorecendo exposições orientadas a valor: ativos com características de renda fixa (utilities, saneamento, shoppings) e cíclicos de qualidade (bancos e construtoras voltadas para baixa renda).
Recompra de ações e fluxos estrangeiros
O banco ressalta que a atividade de recompra de ações por parte das empresas aumentou sequencialmente — R$ 2,5 bilhões em maio versus R$ 800 milhões em abril — reforçando indiretamente o suporte via valuation. As alocações globais permanecem fortemente inclinadas para mercados impulsionados por IA, como Taiwan e Coreia, apoiadas por revisões de lucros mais fortes. Nesse ambiente, o Brasil/América Latina continua atuando como fonte de recursos, com investidores estrangeiros reduzindo a exposição.
Os fluxos estrangeiros para a B3 caíram significativamente: de um pico de cerca de R$ 68 bilhões no acumulado do ano para menos de R$ 38 bilhões, enquanto os fundos locais de ações continuam registrando resgates líquidos.
Indicadores técnicos mais favoráveis
Apesar da visibilidade limitada de catalisadores, os investidores reconhecem cada vez mais que surpresas positivas poderiam ter um impacto maior do que novas notícias negativas. Para o BBA, os indicadores técnicos estão se tornando mais favoráveis, com o indicador de sobrecompra/sobrevenda do Ibovespa entrando recentemente em território de sobrevenda, historicamente associado a recuperações de cerca de 5% ao longo de aproximadamente 8 semanas.
Pessimismo embutido nos preços
Uma discussão recorrente é se os ativos brasileiros já precificam um cenário macroeconômico excessivamente pessimista. Os investidores destacam inconsistências entre classes de ativos: as taxas de juros locais sugerem uma perspectiva significativamente mais adversa do que as ações e o câmbio. Com taxas reais acima de 8% e visibilidade limitada da política econômica, essas divergências tornaram-se mais acentuadas.
"Nossa estrutura de análise Bull-Bear sugere que a renda fixa precifica apenas cerca de 20% de probabilidade para um cenário de alta, contra cerca de 35% nas ações e 55% no câmbio – indicando um pessimismo substancial já embutido nos ativos brasileiros", avaliam os estrategistas.
Rotação para valor e carteira recomendada
O BBA também discutiu uma possível nova rotação global de crescimento para valor. A construção de portfólios é cada vez mais moldada pelo custo de oportunidade em relação às ações globais. Investidores locais estão alocando mais capital em mercados internacionais, particularmente no setor de tecnologia, muitas vezes em detrimento da exposição doméstica.
"Muitos preferem o acesso direto a temas de crescimento global em moedas fortes em vez da exposição cambial indireta via exportadoras brasileiras. Investidores estrangeiros, por sua vez, reduziram posições anteriores em petróleo, ao mesmo tempo em que revisitam seletivamente empresas de qualidade subvalorizadas no Brasil", avaliam.
Na visão do BBA, as condições atuais favorecem portfólios equilibrados que combinam diversificação com large caps de qualidade e ações de valor no Brasil. A carteira recomendada mantém exposição a exportadoras (commodities e Embraer, com peso de cerca de 28%), juntamente com apostas em valor no mercado doméstico, e está abaixo da média em ações de crescimento, privilegiando o setor de saúde (Rede D'Or) dentro dessa categoria.



