A startup chinesa DeepSeek está desenvolvendo seu próprio chip de inteligência artificial, segundo três fontes familiarizadas com o assunto. A iniciativa visa reduzir a dependência da empresa dos produtos da Nvidia e da Huawei, dos quais ela tem dependido para treinar e executar seus modelos de IA, que ganharam popularidade mundial.
Chip focado em inferência
O chip projetado pela DeepSeek é destinado à inferência — a etapa da computação de IA em que um modelo treinado gera respostas para os usuários — e não para o treinamento de novos modelos, afirmaram as fontes. Se for bem-sucedida, a expansão da DeepSeek para o desenvolvimento de semicondutores marcaria uma grande mudança estratégica para a empresa, amplamente considerada na China como a campeã nacional em IA. Isso também poderia aumentar os desafios enfrentados pela gigante chinesa de tecnologia Huawei.
Reação do mercado
Às 10h45 (horário de Brasília), as ações da Nvidia, com sede nos EUA, cediam perto de 2%. O analista Richard Windsor, da Radio Free Mobile, comentou: “A Nvidia está em zero na China e vai continuar assim. A DeepSeek quase não tem chance de vender chips fora da China, a menos que tenha acesso a tecnologia de ponta em fabricação”, acrescentando que o desenvolvimento não afeta a fabricante de chips.
Contexto da DeepSeek
A DeepSeek ganhou fama mundial há mais de um ano, após lançar dois modelos de IA altamente eficientes que se tornaram virais, surpreendendo muitos no Vale do Silício e em Washington. A empresa é conhecida por enfatizar avanços em modelos de IA, em vez de comercializar sua tecnologia. Embora as ofertas da Huawei ainda fiquem atrás dos chips mais avançados da Nvidia, a proibição dos EUA de exportá-los para a China ajudou a Huawei a conquistar cerca de metade do mercado doméstico de chips de IA, avaliado em US$ 50 bilhões, fornecendo para a DeepSeek e outros líderes do setor.
Concorrência no mercado de chips
No entanto, o domínio da Huawei no mercado já está enfraquecendo, à medida que rivais tecnológicos como Alibaba e Baidu desenvolvem seus próprios chips de IA e ganham participação de mercado. Os esforços da DeepSeek para entrar nessa corrida ainda estão em estágio inicial, com a empresa buscando parceiros externos e mantendo discussões com empresas de design de chips, fundições e memórias, segundo as três fontes. A iniciativa começou há cerca de um ano, disse uma delas.
Contratação discreta de engenheiros
A empresa sediada em Hangzhou também intensificou a contratação de engenheiros de projeto de chips nos últimos meses, mas o recrutamento tem sido feito de forma discreta, sem anúncios de vagas em plataformas públicas, segundo duas das fontes. Todas as três fontes preferiram não se identificar, pois as informações não são públicas. Apesar de ter se tornado um porta-estandarte das ambições da China em IA, a DeepSeek mantém um perfil discreto e não respondeu a um pedido de comentário.
Tendência global de chips próprios
Com um chip desenvolvido internamente, a DeepSeek se juntaria a outras empresas globais de IA na busca por maior controle sobre o hardware por trás de seus modelos e menor dependência dos chips da Nvidia. A OpenAI revelou no mês passado o Jalapeño, seu primeiro chip de inferência personalizado, desenvolvido em parceria com a Broadcom, enquanto a Anthropic vem avaliando a possibilidade de construir seus próprios chips de IA, informou a Reuters em abril.
Dimensão estratégica na China
Para a DeepSeek, essa iniciativa traz uma dimensão estratégica adicional. Os controles de exportação dos EUA impedem que empresas chinesas comprem os chips mais avançados da Nvidia, e Pequim vem pressionando suas líderes em tecnologia a desenvolver alternativas nacionais. O fundador da DeepSeek, Liang Wenfeng, disse em uma rara entrevista em 2024 que os controles de exportação de chips representavam um desafio para a empresa.
Uso de chips Nvidia e Huawei
A DeepSeek tem utilizado chips tanto da Nvidia quanto da Huawei. A empresa afirmou que o modelo de base que sustenta o R1 — o modelo de raciocínio cujo desempenho de baixo custo provocou uma queda acentuada nas ações do setor de tecnologia dos EUA em janeiro de 2025 — foi treinado no H800 da Nvidia, um chip projetado para o mercado chinês que Washington proibiu no final de 2023. Desde então, a empresa tem se apoiado cada vez mais na Huawei. Em abril, ela lançou seu modelo V4 adaptado para os chips Ascend da Huawei. Já a Huawei afirmou que seus processadores foram utilizados em parte do treinamento do V4-Flash, uma versão mais leve do modelo. Os pedidos pelos chips Ascend 950 da Huawei por parte de conglomerados de tecnologia chineses dispararam após o lançamento, segundo reportagem da Reuters.
Foco no segmento de inferência
Um chip de inferência da DeepSeek teria como alvo o segmento de maior crescimento na demanda por computação de IA. À medida que as aplicações de IA se disseminam, cada vez mais o trabalho de computação do setor está mudando do treinamento de modelos para a execução deles, o que depende de chips especializados que podem ser mais baratos e consumir menos energia do que GPUs de uso geral. No entanto, não há garantia de sucesso. Projetar um chip de IA competitivo normalmente leva anos e exige capital significativo. A fabricação representa outro obstáculo, já que os EUA proíbem projetistas chineses de acessar as fundições estrangeiras mais avançadas, enquanto restrições separadas reduziram o acesso da China à memória de alta largura de banda, um componente essencial para chips de inferência de IA.
Captação de recursos externos
A aposta da DeepSeek nos chips coincide com a primeira vez em que a empresa aceita capital externo. A empresa estava preparada para levantar US$ 7 bilhões em uma rodada inicial de financiamento, com avaliação entre US$ 52 bilhões e US$ 59 bilhões, informou a Reuters em junho, em uma reversão de sua estratégia de longa data de rejeitar investimentos externos.



