A gigante francesa de medicina nuclear Curium anunciou nesta terça-feira (3) a compra da norte-americana Lantheus Holdings, concorrente no mercado de radiofármacos, em um negócio avaliado em US$ 6,7 bilhões. A transação, que será paga em dinheiro, cria um dos maiores grupos do setor no mundo, com presença em mais de 40 países e receita combinada estimada em US$ 2 bilhões anuais.
Detalhes do acordo e estratégia
O valor de US$ 6,7 bilhões corresponde a US$ 24,50 por ação da Lantheus, um prêmio de aproximadamente 18% sobre o preço médio de fechamento dos últimos 30 dias. A operação foi aprovada por unanimidade pelos conselhos de administração de ambas as empresas e deve ser concluída no primeiro trimestre de 2027, sujeita à aprovação de órgãos reguladores e acionistas da Lantheus.
Segundo comunicado oficial, a Curium pretende financiar a compra com recursos próprios e dívida. A companhia já havia demonstrado ambição de expansão no segmento de radiofármacos, que cresce impulsionado pelo avanço de terapias contra o câncer. A Lantheus é conhecida por seu portfólio em diagnósticos por imagem e terapias inovadoras, incluindo o Pylarify, usado em exames de câncer de próstata, e o Pluvicto, tratamento radiofarmacêutico para tumores metastáticos.
Impacto no setor e sinergias
A fusão deve gerar sinergias de custos de US$ 150 milhões por ano até o terceiro ano após a conclusão, conforme estimativas da diretoria. Analistas apontam que a combinação fortalece a capacidade de pesquisa e desenvolvimento, além de ampliar a escala de produção de radioisótopos, um gargalo crítico no setor.
“Esta aquisição representa um marco na nossa trajetória e um passo decisivo para oferecer soluções mais completas aos pacientes com câncer”, afirmou o CEO da Curium, Jean-Marc Vignolles, em nota. “A Lantheus traz inovação e um time talentoso, e juntos teremos mais recursos para acelerar novas terapias.”
Reações do mercado e próximos passos
As ações da Lantheus subiram 12% nas negociações pré-mercado em Nova York, refletindo o otimismo dos investidores com o prêmio oferecido. Já a Curium, que não possui capital aberto, não teve variação. Especialistas do setor veem a operação como um movimento de consolidação que pode pressionar concorrentes como a Novartis e a Bayer, que também investem pesado em radiofármacos.
O negócio ainda precisa do aval do Comitê de Investimento Estrangeiro nos Estados Unidos (CFIUS) e de autoridades antitruste da União Europeia. A expectativa é que o processo transcorra sem grandes obstáculos, dado o perfil complementar das operações. A sede da empresa combinada permanecerá em Paris, com centros de pesquisa nos EUA e na Europa.
Contexto do mercado de radiofármacos
O mercado global de radiofármacos deve atingir US$ 12 bilhões em 2027, com crescimento anual de 9%, segundo a consultoria Grand View Research. A demanda é impulsionada pelo envelhecimento populacional e pela eficácia comprovada de terapias alvo-dirigidas. Com a aquisição, a Curium passa a deter uma das maiores redes de distribuição de radioisótopos do mundo, incluindo reatores próprios e ciclotrons.
A Lantheus, fundada em 1956, registrou receita de US$ 1,1 bilhão em 2025, alta de 23% sobre o ano anterior. A empresa emprega cerca de 1.800 funcionários, que devem ser integrados à estrutura da Curium. Não há previsão de cortes significativos de pessoal, segundo fontes próximas às negociações.
Análise e perspectivas
Para o professor de economia da saúde da Universidade de São Paulo (USP), Carlos Alberto Ribeiro, a operação é estratégica: “A Curium está apostando em um segmento com alto potencial de crescimento e barreiras de entrada elevadas. A combinação de portfólios complementares pode acelerar o desenvolvimento de novas terapias e ampliar o acesso em mercados emergentes, incluindo o Brasil.”
No Brasil, a Curium já atua por meio de parcerias com hospitais e clínicas, oferecendo radiofármacos para diagnósticos cardiológicos e oncológicos. A empresa espera expandir sua presença no país após a fusão, aproveitando a estrutura da Lantheus na América Latina. A conclusão do negócio está prevista para o início de 2027, mas a integração das equipes deve começar antes, com a criação de comitês conjuntos de transição.



