O fluxo cambial total registrou saída líquida de US$ 1,065 bilhão na semana de 20 a 24 de julho, informou o Banco Central nesta quarta-feira (29). O resultado reflete a diferença entre as operações de câmbio contratadas e liquidadas no período, abrangendo tanto o segmento comercial quanto o financeiro. O dado é mais um indicador da pressão sobre o real em um contexto de aversão a risco global e incertezas fiscais domésticas.
Saída no comercial e no financeiro
No segmento comercial, que envolve operações de comércio exterior, a saída líquida foi de US$ 423 milhões. Já no segmento financeiro, que inclui investimentos estrangeiros em carteira e remessas de lucros, a saída somou US$ 642 milhões. Segundo o Banco Central, o movimento foi influenciado pelo aumento da compra de dólares por parte de investidores institucionais e pela maior procura por moeda estrangeira para cobertura de exposições cambiais.
A autoridade monetária destacou que, apesar da saída semanal, o fluxo cambial acumulado no mês de julho até o dia 24 ainda apresenta saldo positivo de US$ 312 milhões, impulsionado por ingressos no início do mês. No ano, porém, o saldo é negativo em US$ 4,8 bilhões, reflexo do ambiente de incerteza que tem levado a saídas constantes de capital.
Contexto internacional e impactos
A saída de dólares na semana coincidiu com a volatilidade nos mercados globais, motivada por dados de emprego nos Estados Unidos e pela sinalização do Federal Reserve de que pode manter juros elevados por mais tempo. Esse cenário tem fortalecido o dólar no mundo e pressionado as moedas emergentes, como o real. O dólar comercial encerrou a semana cotado a R$ 5,20, uma alta de 1,2% em relação ao fechamento anterior.
Para analistas, a tendência de saída de capitais deve persistir enquanto não houver maior clareza sobre o rumo da política monetária americana e sobre a situação fiscal brasileira. O mercado aguarda a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) na próxima semana, que pode indicar o ritmo de cortes na taxa Selic.
Fluxo cambial acumulado no ano
O Banco Central também divulgou o fluxo cambial acumulado em 2026. De janeiro a 24 de julho, a saída líquida totaliza US$ 4,8 bilhões. No mesmo período do ano passado, o fluxo era positivo em US$ 2,1 bilhões. A mudança de sinal reflete a piora nas expectativas econômicas e o aumento da aversão ao risco por parte de investidores estrangeiros.
No segmento financeiro, o saldo acumulado no ano é negativo em US$ 6,2 bilhões, enquanto o comercial tem superávit de US$ 1,4 bilhão. O resultado do segmento comercial é influenciado pelo bom desempenho das exportações, que têm gerado entrada de dólares, mas insuficiente para compensar as saídas financeiras.
Segundo o chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central, em nota, "os dados de fluxo cambial mostram a reação dos agentes econômicos ao cenário externo e interno. A saída na semana foi pontual e não altera a avaliação de que o câmbio segue sendo determinado por fundamentos."
Perspectivas para o câmbio
Especialistas consultados pelo Valor projetam que o dólar deve se manter em um patamar elevado nos próximos meses, entre R$ 5,10 e R$ 5,30, dependendo da evolução das contas públicas e do cenário internacional. A saída de capitais na semana de 20 a 24 de julho reforça a visão de que o real continua vulnerável a choques externos.
O Banco Central, por sua vez, tem atuado no mercado de câmbio por meio de leilões de linha e de swap cambial para conter a volatilidade excessiva. Até o dia 24 de julho, a autoridade monetária já havia realizado operações que somam US$ 15 bilhões no mês, com o objetivo de ofertar liquidez e evitar movimentos bruscos na cotação.
A divulgação do fluxo cambial semanal é acompanhada de perto pelo mercado, pois sinaliza a direção dos fluxos de capital e pode antecipar movimentos da taxa de câmbio. A saída de US$ 1,065 bilhão na semana analisada é a maior desde a última semana de junho, quando houve saída de US$ 1,3 bilhão.



