O Bitcoin voltou a oscilar nesta quinta-feira (29), cotado próximo dos US$ 68 mil, após a decisão do Federal Reserve (Fed) de manter as taxas de juros inalteradas no intervalo de 5,25% a 5,50%. A atenção do mercado de criptomoedas se voltou para o discurso do indicado ao Fed, Kevin Warsh, que adotou um tom mais hawkish do que o esperado, gerando incertezas sobre o futuro da política monetária americana.
Fed mantém juros, mas sinaliza cautela
O Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) decidiu, por unanimidade, manter a taxa básica de juros, como era amplamente esperado. No comunicado, o Fed reiterou que precisa de maiores evidências de que a inflação está convergindo para a meta de 2% antes de considerar cortes. A decisão veio em linha com as projeções do mercado, que já precificava a manutenção. No entanto, o tom do comunicado foi considerado ligeiramente mais cauteloso, mencionando que o progresso no combate à inflação tem sido irregular.
Mercado atento ao tom de Warsh
O grande destaque do dia foi o discurso de Kevin Warsh, ex-presidente do Federal Reserve de St. Louis e atualmente indicado pelo governo Trump para assumir um cargo no conselho do Fed. Em evento em Nova York, Warsh afirmou que a luta contra a inflação está longe do fim. "Ainda não atingimos nossa meta de inflação de forma sustentável. Precisamos ver sinais mais consistentes de queda antes de qualquer afrouxamento", disse Warsh. Suas declarações foram interpretadas como mais hawkish do que o mercado esperava, impulsionando o dólar e pressionando os ativos de risco.
Impacto imediato no Bitcoin
O Bitcoin, que havia subido para US$ 68.800 antes do discurso de Warsh, recuou rapidamente para US$ 67.200, antes de se recuperar parcialmente para a faixa dos US$ 68.000. A volatilidade foi elevada, com variação intradiária superior a 3%. Segundo dados da CoinMetrics, o volume de negociações nas principais exchanges cresceu 40% nas últimas 24 horas, indicando forte participação de investidores reagindo ao noticiário. "O mercado de criptomoedas continua sensível aos movimentos de política monetária. A fala de Warsh trouxe um viés mais pessimista no curto prazo", comentou André Silva, analista da corretora Mercado Bitcoin.
Perspectivas para as próximas sessões
Analistas apontam que o mercado deve continuar acompanhando de perto os próximos pronunciamentos de membros do Fed, além de dados econômicos como o payroll americano, previsto para a próxima semana. Uma eventual sinalização de cortes de juros ainda neste ano pode impulsionar o Bitcoin e outras criptos, mas o tom hawkish de Warsh sugere que o caminho pode ser mais longo. "O nível de US$ 70 mil continua sendo uma resistência importante. Se o Fed não der sinais de afrouxamento, o Bitcoin pode testar suportes em US$ 65 mil", projetou Silva.
Enquanto isso, as altcoins também sofreram oscilações. Ethereum recuou 1,2%, negociado a US$ 3.750, enquanto Solana caiu 2,5%. O índice CoinDesk 20, que acompanha as maiores criptomoedas, recuou 1,6% nas últimas 24 horas. O mercado total de criptomoedas perdeu cerca de US$ 40 bilhões em valor de mercado, segundo dados da CoinMarketCap, refletindo a incerteza gerada pelas declarações de Warsh.
Reações do mercado financeiro tradicional
Nos mercados tradicionais, o dólar subiu frente a uma cesta de moedas, com o índice DXY avançando 0,3%. Os juros futuros de curto prazo nos EUA também subiram, com o título de 2 anos alcançando 4,85%. As bolsas de Nova York fecharam em queda: Dow Jones perdeu 0,8%, S&P 500 caiu 0,6%, e Nasdaq recuou 0,9%. A aversão ao risco foi o tom predominante, com investidores migrando para ativos considerados seguros, como o ouro, que avançou 0,5%, para US$ 2.340 a onça.
O que esperar do Fed e de Warsh
Kevin Warsh é considerado um candidato com perfil mais conservador, e sua indicação precisa ser confirmada pelo Senado. Caso aprovado, ele pode influenciar a direção da política monetária. Analistas do Goldman Sachs projetam que o Fed deve manter os juros até setembro, com um possível corte em dezembro. No entanto, as falas de Warsh sugerem que pode haver uma postura ainda mais rígida, atrasando qualquer afrouxamento. "O mercado vai interpretar cada palavra dos dirigentes do Fed. A volatilidade deve continuar alta", afirmou a economista-chefe do banco BV, Gabriela Brito.
No cenário das criptomoedas, a correlação com os mercados tradicionais permanece elevada, embora o Bitcoin tenha mostrado certa resiliência ao se manter acima de US$ 67 mil. A aprovação de ETFs de Bitcoin à vista nos EUA trouxe maior liquidez e participação institucional, mas não eliminou a sensibilidade a choques macroeconômicos. "O Bitcoin está em uma fase de consolidação. Ainda não temos um catalisador claro para romper os US$ 70 mil, mas o cenário de longo prazo segue positivo", concluiu Silva.



