O Bitcoin (BTC) registrou a maior perda entre todos os ativos acompanhados pelo investidor brasileiro no primeiro semestre de 2026, com recuo de mais de 34% de janeiro a junho, segundo levantamento da Elos Ayta. O segundo pior desempenho foi o do euro, com queda de quase 9%. No mesmo período, o Ibovespa subiu 7,55%, o CDI rendeu 6,73% e o petróleo WTI avançou mais de 20%, beneficiado pelo alívio no conflito no Oriente Médio.
Queda trimestral histórica
A desvalorização não se deu em um único movimento. Após atingir a máxima histórica de cerca de US$ 126 mil em outubro de 2025, o Bitcoin entrou em uma sequência de quedas que se estendeu pelo semestre, com um repique em abril que perdeu força. O ativo fecha três trimestres consecutivos no vermelho, com perda de aproximadamente 22% no primeiro trimestre e 12% no segundo, conforme dados da Coinglass. Abrir um ano com quedas trimestrais consecutivas só ocorreu duas vezes na história do ativo.
Três razões para a derrocada
1. O Fed fechou a torneira
A raiz da queda está na virada da política monetária americana, com o retorno do temor de inflação impulsionado pela alta do petróleo devido à guerra no Oriente Médio. Isso ocorreu justamente quando o mercado ainda esperava novos cortes de juros nos Estados Unidos, que haviam sido o combustível da alta do Bitcoin em 2025. As apostas em cortes perderam força, e o capital começou a deixar os ativos de risco.
A chegada de Kevin Warsh ao comando do Federal Reserve selou esse novo regime. Indicado por Trump no fim de janeiro, Warsh defende há duas décadas uma meta de inflação de 2% sem concessões. Seu primeiro discurso, de tom duro, confirmou ao mercado que a era de dinheiro barato havia acabado. Segundo Markus Thielen, fundador da 10x Research, "a queda do Bitcoin não é uma história da MicroStrategy; é uma história do Fed". Para ele, a chegada de Warsh desencadeou uma reprecificação completa do ambiente de liquidez. A perspectiva de juros altos por mais tempo torna os títulos do Tesouro americano mais atrativos e encarece a manutenção de ativos que não pagam rendimento; um dólar forte pesa sobre quem compra em outras moedas.
2. O dinheiro trocou cripto por IA
Sem perspectiva de afrouxamento monetário, o dinheiro institucional migrou para onde os retornos apareceram: as ações de inteligência artificial e de semicondutores. A saída teve um canal fácil nos ETFs americanos de Bitcoin. Quando um investidor resgata cotas, o fundo precisa vender Bitcoin no mercado à vista para honrar a retirada, pressionando o preço.
O patrimônio total dos ETFs caiu de mais de US$ 100 bilhões para cerca de US$ 85 bilhões no início de junho. Desde o dado de inflação de maio, esses fundos somam US$ 7 bilhões em resgates líquidos, com outros US$ 2 bilhões deixando as carteiras após a reunião do Fed de 17 de junho. Como o preço médio estimado de compra nesses fundos é de US$ 82 mil, boa parte dos investidores que entraram pela porta institucional carrega prejuízo de cerca de 27%. Marion Laboure, analista do Deutsche Bank, avalia: "Essa venda contínua sinaliza que os investidores tradicionais estão perdendo interesse, e que o pessimismo geral com a cripto está crescendo." Diferentemente de ciclos de baixa anteriores, a pressão não veio de dentro do mercado cripto, mas de uma realocação de investidores institucionais.
3. A crise da Strategy
Poucas empresas traduzem o ciclo do Bitcoin tão bem quanto a Strategy (MSTR), de Michael Saylor. A companhia guarda mais de 845 mil BTC, posição hoje inteiramente no prejuízo. As ações chegaram a cair 85% ante o pico de novembro de 2024, e o valor de mercado, que beirava US$ 122 bilhões em julho de 2025, caiu para perto de US$ 29,5 bilhões.
O abalo de confiança ganhou força no fim de maio, quando Saylor vendeu 32 BTC por US$ 2,5 milhões, a primeira venda da empresa desde dezembro de 2022. O valor era irrisório diante do tamanho da carteira, mas rompeu simbolicamente a narrativa do "nunca vender". Pouco depois, a empresa passou a valer menos do que os bitcoins que possui, situação inédita desde os primeiros anos da estratégia de Saylor. Isso tirou dele o trunfo que sustentava o modelo: emitir ações para comprar mais BTC deixou de fazer sentido, pois significaria vender participações baratas demais. A resposta veio na manhã de segunda-feira (29), com um novo arcabouço de gestão de capital que prevê até US$ 2 bilhões em recompras e autoriza, pela primeira vez de forma formal, a venda de Bitcoin para reforçar o caixa em dólar. As ações subiram cerca de 6% no pré-mercado.
É a última chance para sair?
O investidor que pensa em sair por receio de novas quedas talvez deva se preparar. Ainda não há consenso sobre se o pior já passou, mas muitos analistas acham que não. Fabrício Tota, vice-presidente de negócios cripto do Mercado Bitcoin, vê o ativo numa região decisiva depois de perder os US$ 60 mil e a média móvel de 200 semanas, com alvos seguintes entre US$ 54 mil e US$ 55 mil e, no pior cenário, US$ 50 mil. Ele pondera, no entanto, que o mercado já reúne sinais de estresse avançado, condições que costumam abrir espaço de maior assimetria para quem pensa no longo prazo.
Thielen aponta a mesma faixa como projeção central. A virada, na sua leitura, só virá com confirmação nos dados de inflação americana, estabilização das expectativas de juros e um sinal claro de que o Fed mudará de tom. O próximo termômetro é o CPI, índice de inflação ao consumidor dos Estados Unidos, previsto para 14 de julho.
A Grayscale enxerga o quadro com mais calma. Em relatório, o chefe de pesquisa da gestora, Zach Pandl, defende que a correção dificilmente chegará aos 80% de queda dos ciclos anteriores, por causa do maior peso institucional e de uma estrutura de mercado mais madura. Para ele, o fundo depende de dois fatores: a postura do Fed e a aprovação do CLARITY Act no Senado americano, projeto que regulamenta os ativos digitais e ainda está à espera de votação no plenário.
A 21Shares vai na mesma direção. Em relatório, a gestora europeia de ETPs argumenta que o ciclo do Bitcoin mudou de caráter, mas não se rompeu, pois mesmo com a saída de dólares dos ETFs, o volume de Bitcoin guardado por esses fundos seguia perto das máximas até maio, em 1,25 milhão de moedas, apenas 8% abaixo do pico. Para a casa, os investidores estão esperando, não desistindo, e a aposta é uma recuperação rumo a US$ 100 mil até o fim do ano.
No curto prazo, porém, a cautela continua mandando, e o nível dos US$ 60 mil deve concentrar as atenções. "Se o ativo recuperar rapidamente essa faixa, a perda pode ter sido apenas uma armadilha de curto prazo. Mas se tentar voltar para cima e falhar, transformando os antigos US$ 60 mil em resistência, a chance de buscarmos US$ 54 mil a US$ 55 mil aumenta de forma relevante", diz Tota.



