O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nesta quarta-feira um estudo que mostra que os trabalhadores que entraram no mercado de trabalho nos últimos 12 meses apresentam rendimento médio inferior ou próximo à média geral dos ocupados. O dado faz parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) e acende um alerta sobre a qualidade da inserção profissional no país.
Rendimento dos novos ocupados
Segundo o levantamento, o rendimento médio real dos novos trabalhadores – aqueles que estavam ocupados há menos de um ano – foi de R$ 2.240 em 2025, valor cerca de 12% abaixo da média nacional de R$ 2.545. Em algumas regiões metropolitanas, a diferença chega a 20%. O estudo destaca que, embora haja variação por setor e nível de escolaridade, o padrão se repete em praticamente todas as áreas.
“Os dados indicam que o mercado de trabalho não está absorvendo esses profissionais com salários equivalentes aos dos trabalhadores mais experientes”, afirma Adriana Beringuy, analista do IBGE. “Isso pode estar relacionado à falta de experiência, mas também à precarização das vagas abertas recentemente.”
Setores com maior diferença
Os setores que mais empregam novatos – como serviços domésticos, comércio varejista e construção civil – são justamente os que pagam os menores salários. No comércio, o rendimento médio dos novatos é de R$ 1.850, ante R$ 2.100 dos veteranos. Na construção, a diferença é de R$ 2.000 contra R$ 2.350. Já na indústria de transformação, a diferença é menor: R$ 2.400 para novos e R$ 2.600 para antigos.
O IBGE também identificou que os novos trabalhadores têm maior probabilidade de estar em ocupações informais. Cerca de 48% dos que entraram no mercado no último ano estão sem carteira assinada, contra 34% dos que estão há mais tempo. Essa informalidade contribui para a redução do rendimento médio.
Escolaridade não garante igualdade
Mesmo entre os trabalhadores com ensino superior completo, a diferença persiste. Os recém-formados que conseguiram emprego formal ganham, em média, R$ 3.800, enquanto os profissionais formados há mais de cinco anos recebem R$ 5.200. A diferença de 27% reflete tanto a falta de experiência quanto a concorrência por vagas em um mercado ainda restrito.
“O diploma não é mais um passaporte para um salário elevado logo de início. As empresas estão valorizando cada vez mais a experiência prática”, comenta o economista Bruno Imaizumi, da LCA Consultores. “Os jovens precisam aceitar salários menores para acumular currículo.”
Impacto na economia
A tendência de rendimentos mais baixos para os novos ocupados pode ter efeitos negativos no consumo e na poupança das famílias. Com menos dinheiro disponível, esses trabalhadores tendem a gastar menos, impactando o comércio e os serviços. Além disso, a rotatividade elevada – muitos novatos deixam o emprego nos primeiros meses – gera custos para as empresas e descontinuidade na renda.
O IBGE ressalta que, apesar do rendimento menor, a taxa de ocupação entre os novos trabalhadores cresceu 3,2% no último trimestre, sinal de que o mercado está gerando vagas, mas com qualidade abaixo da desejada. “O desafio é melhorar a qualidade dessas ocupações, com salários mais justos e direitos trabalhistas garantidos”, conclui Beringuy.



