Exportadores brasileiros manifestaram forte reação à ameaça de imposição de novas tarifas pelos Estados Unidos. Segundo a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham), o volume de exportações que pode ser afetado chega a US$ 15 bilhões, caso a tarifa de 25% seja aplicada. Isso teria impacto direto na competitividade dos produtos brasileiros no mercado norte-americano.
Reações dos setores produtivos
O presidente da Amcham Brasil, Abraão Neto, alertou que o aumento seria exclusivo para as exportações brasileiras, ampliando a diferença de competitividade em relação a outros concorrentes. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) destacou os impactos negativos nas cadeias produtivas e lembrou que, em 2025, as exportações brasileiras já caíram 4,2% na comparação com o ano anterior, em meio ao tarifaço.
O setor de calçados está particularmente preocupado com uma possível paralisação das vendas. Haroldo Ferreira, presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), afirmou que toda a projeção positiva de crescimento das exportações para os EUA e de geração de empregos no Brasil fica comprometida. Ele ressaltou que o mercado interno já enfrenta dificuldades de produção neste primeiro trimestre, e a produção voltada à exportação vinha sendo um ponto positivo.
Empresários da moda também se preparam para negociar. Fernando Valente Pimentel, diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), defendeu uma atuação forte junto ao governo, combinando diplomacia empresarial e governamental, para demonstrar que a tarifa não faz sentido, especialmente para o setor têxtil. Ele frisou que a indústria deseja aprofundar as relações com os Estados Unidos.
O mercado americano é o principal destino da produção de máquinas e equipamentos. José Velloso, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), lembrou que o tarifaço de 2025 atingiu fortemente o setor, que exportava US$ 4 bilhões anuais para os EUA antes da medida.
Análise de especialistas
Especialistas ouvidos pelo Jornal Nacional apontam que o relatório da Agência Americana de Comércio ignora fatos importantes: a balança comercial é favorável aos Estados Unidos, o desmatamento no Brasil caiu e o ambiente de negócios não impede investimentos estrangeiros. Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior, avaliou que as críticas do relatório servem como pretextos para pressionar o Brasil. Questionado sobre as críticas ambientais, Barral classificou-as como superficiais, destacando que grande parte das exportações brasileiras para os EUA, como móveis e madeira, vêm do Sul do país, sem relação com desmatamento, e que a queda do desmatamento não foi considerada.
Barral acrescentou que todos os temas comerciais envolvem interesses nacionais e são armas de negociação, incluindo argumentos sobre o PIX e liberdade de expressão, que na verdade escondem interesses econômicos. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) emitiu nota esclarecendo que o PIX é uma infraestrutura de pagamentos, não um produto comercial, e que não há restrição à entrada de novos participantes, desde que operem no mercado nacional com o real.
Rodrigo Fagundes Cezar, professor de Relações Internacionais da FGV, acredita que a pressão do consumidor americano pesará sobre o governo Trump. Ele observou que as críticas atuais são antigas e já foram feitas há 5, 10 ou 15 anos. O jogo de interesses, segundo ele, consiste em determinar quando beneficiar um grupo específico e quando recuar para não afetar a popularidade.
O cenário preocupa os exportadores, que buscam mobilização junto ao governo brasileiro para evitar a imposição das tarifas e preservar a competitividade dos produtos nacionais no mercado norte-americano.



