O Banco Safra divulgou balanço das prévias operacionais das construtoras listadas na B3 do segundo trimestre de 2026 nesta segunda-feira (20). Em relatório, os analistas do Safra apontam que as incorporadoras registraram um desempenho abaixo do previsto, pressionadas por um cenário macroeconômico mais adverso, pela inflação e pelo impacto sazonal da Copa do Mundo em junho.
Segmento popular sofre com restrições de crédito
De acordo com o documento, as empresas focadas no mercado popular sentiram os reflexos mais expressivos do período. Apesar dos parâmetros de acesso do programa Minha Casa Minha Vida (MCMV) terem apresentado avanços, as restrições impostas nos financiamentos concedidos pela Caixa Econômica Federal atrapalharam a velocidade das negociações das companhias.
“A redução de cerca de 300 pontos-base no comprometimento máximo de renda para financiamento imobiliário contribuiu para vendas abaixo do esperado”, diz o relatório, explicando que essa medida reduziu a capacidade de compra das famílias e levou o volume total de vendas do segmento popular a ficar 7% abaixo do projetado pelo banco.
Os lançamentos agrupados de baixa renda registraram queda de 1% em relação ao mesmo período do ano anterior e terminaram 5% abaixo do que estimavam os analistas do Safra. Os analistas reforçam que parte desse movimento foi influenciada pelo ritmo menor de lançamentos na cidade de São Paulo após uma suspensão temporária na concessão de alvarás de construção, somada ao foco na precificação perante a inflação.
Vendas sobre oferta recuam
Com isso, a Relação de Vendas sobre Oferta (VSO) caiu para 24,2%, acumulando retração de 0,5 ponto percentual (p.p.) sobre o primeiro trimestre e de 2,2 pontos percentuais em 12 meses.
No universo das companhias analisadas pelo Safra, a Tenda (TEND3) liderou a desaceleração no indicador de VSO ao recuar para 24,4%, acumulando queda de 3,2 pontos percentuais frente ao trimestre imediatamente anterior. A Direcional (DIRR3), embora tenha registrado avanço na geração de caixa, apresentou vendas 12% inferiores às projeções do Safra, refletindo a divisão de resultados com parceiros nos empreendimentos e a perda de tração da subsidiária Riva.
Perspectivas de recuperação para o segmento popular
Apesar do período fraco, a análise do Safra enxerga potencial de recuperação para o segmento popular nos meses seguintes. O banco destaca que a Caixa Econômica Federal pode amenizar os limites de crédito vigentes e lembra que o Conselho Curador do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) se reunirá em 28 de julho para debater a redução dos juros cobrados nas faixas superiores do MCMV.
Média e alta renda enfrentam acúmulo de estoques
Nas construtoras dedicadas à média e alta renda, a apresentação de novos projetos mostrou força ao avançar 3% no comparativo anual e superar em 5% as previsões do Safra. Por outro lado, o volume de vendas líquidas caiu 2% e perdeu ligeiramente o ritmo previsto pelos analistas.
O relatório descreve que, se por um lado os novos empreendimentos mantiveram uma taxa de absorção firme (com VSO próxima de 36%), por outro, o escoamento das unidades prontas e lançadas anteriormente perdeu força, registrando Vendas sobre Estoque (VSE) de aproximadamente 10%.
A desaceleração acumulada no giro das unidades em estoque elevou os volumes guardados pelas companhias listadas sob cobertura do Safra. Os inventários somaram R$ 25,6 bilhões no encerramento do trimestre, o que representa um crescimento de 8% em relação ao trimestre anterior e um salto de 23% frente ao segundo trimestre do ano passado.
“O aumento dos inventários reforça as preocupações do mercado com uma desaceleração mais persistente das vendas de estoque, especialmente em um ambiente de juros elevados”, afirmam os analistas do Safra.
Contrastes operacionais entre as incorporadoras
Segundo o documento do Safra, o desempenho individual das companhias no segundo trimestre expôs uma clara divergência dentro do setor: enquanto algumas empresas conseguiram superar os desafios macroeconômicos e fechar o período com números acima das projeções, outras registraram uma deterioração expressiva em seus indicadores operacionais.
Entre os destaques positivos do período, a Moura Dubeux (MDNE3) e a Cyrela (CYRE3) registraram um volume de vendas superior às estimativas dos analistas. A Moura Dubeux superou em 13% as projeções de comercialização do Safra, alcançando a maior VSO entre as empresas do segmento, ao atingir a marca de 21%.
A Cyrela, por sua vez, reportou uma expansão sequencial de 18% em suas vendas líquidas frente ao primeiro trimestre de 2026. A instituição financeira explica que o desempenho da companhia foi impulsionado pelo forte ritmo de escoamento das unidades prontas, com o volume de vendas performadas de estoque registrando um salto de 24% no período.
Em contrapartida, a Even (EVEN3) apresentou o resultado operacional mais fraco dentro do grupo de incorporadoras acompanhadas pelo banco. O relatório aponta que o volume de vendas da empresa ficou cerca de 45% abaixo das estimativas traçadas pelo Safra, resultando em um indicador de VSO trimestral de apenas 4%, o patamar mais baixo do setor no período.



