O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, alertou nesta quarta-feira (3) que o Brasil ainda não está integrado às cadeias globais de valor da inteligência artificial. Segundo ele, enquanto essa integração não ocorrer, o país não conseguirá transformar o atual ciclo de crescimento em algo sustentável.
Crescimento baseado em demanda tem limites
Galípolo destacou que o modelo de crescimento brasileiro dos últimos anos, baseado em renda crescendo acima da produtividade, crédito aquecido e consumo doméstico forte, funcionou e ainda protege o Brasil de choques externos. No entanto, esse modelo tem um limite. "A gente enxerga essas pressões de demanda dentro dos indicadores de inflação de serviços, que são mais intensivos em mão de obra, o que responde a essa economia que vem crescendo com taxas de desemprego em mínimo histórico e renda em máximo histórico", disse durante painel no Fórum Jurídico de Lisboa.
Pressões inflacionárias e necessidade de juros
O argumento de fundo é que o crescimento puxado por demanda tem um teto. Ultrapassá-lo sem ganhos de produtividade gera pressões que o BC precisa responder com juros. A saída, na visão de Galípolo, é estrutural. "Como é que o Brasil consegue se ligar de maneira mais eficiente com essas cadeias globais de valor para que a gente possa ter crescimento sustentável e integrado por ganhos de produtividade? Esse é o grande desafio", afirmou.
Memória muscular dos mercados
O presidente do BC também chamou atenção para um fenômeno de "memória muscular dos mercados" nos ciclos de aperto monetário. Segundo ele, nos choques de oferta recentes, os juros subiram mais do que os próprios preços, mesmo sendo choques que naturalmente tendem a desacelerar o crescimento. "Essa expressão memória muscular é muito feliz porque ela responde, mas não reflete", afirmou, sugerindo que o mercado age por condicionamento dos ciclos anteriores, e não por análise do cenário presente.
Projeções do mercado
Perto de mais uma reunião do Copom, marcada para os dias 16 e 17 de junho, o mercado projeta o IPCA em 5,09% para 2026, acima do teto da meta de 4,5%, e a Selic em 13,25% ao fim do ano, segundo o Boletim Focus mais recente.



