Os mercados financeiros globais intensificaram as apostas em um novo aumento das taxas de juros pelo Federal Reserve (Fed) após a divulgação de dados que indicam uma inflação mais persistente do que o esperado nos Estados Unidos. A expectativa de uma postura mais agressiva do banco central americano gerou volatilidade nos mercados de câmbio, renda fixa e ações.
Dados de inflação surpreendem e elevam projeções
O índice de preços ao consumidor (CPI) dos EUA subiu 0,3% em junho na comparação mensal, acima da previsão de 0,2% dos analistas. Na base anual, a inflação acelerou para 3,8%, ante 3,7% em maio, contrariando as expectativas de estabilidade. O núcleo do CPI, que exclui alimentos e energia, também avançou 0,2% no mês, mantendo a taxa anual em 4,1%.
Segundo o Departamento do Trabalho dos EUA, os preços de serviços, como aluguel e saúde, continuam pressionando o índice geral. "A inflação ainda não está sob controle, e o Fed precisará agir para evitar que ela se enraíze", afirmou o economista-chefe do banco de investimentos Goldman Sachs, Jan Hatzius, em nota a clientes.
Futuros dos Fed Funds indicam alta em setembro
Após a divulgação dos dados, os contratos futuros dos Fed Funds passaram a precificar uma probabilidade de 68% de uma alta de 0,25 ponto percentual na reunião de setembro do Fed, ante 55% na véspera. Para a reunião de novembro, a chance de um novo aumento subiu para 45%. O mercado também reduziu as expectativas de cortes de juros em 2025.
O rendimento dos títulos do Tesouro americano de 2 anos, sensível às expectativas de política monetária, saltou para 4,95%, maior nível desde maio. O dólar se fortaleceu frente a uma cesta de moedas, com o índice DXY subindo 0,5%.
Impacto nos mercados emergentes e no Brasil
O movimento de alta dos juros americanos pressiona as moedas de países emergentes, incluindo o real. O dólar comercial fechou em alta de 1,2% no Brasil, cotado a R$ 5,45. A bolsa brasileira (Ibovespa) caiu 1,8%, puxada por ações de empresas expostas ao mercado doméstico e de commodities.
"O cenário externo mais restritivo reduz o espaço para o Banco Central brasileiro acelerar o corte da Selic", avaliou o estrategista-chefe do banco BTG Pactual, Eduardo Yuki. A curva de juros futuros no Brasil refletiu o pessimismo, com os contratos para 2027 subindo 0,15 ponto percentual.
Fed deve manter tom cauteloso
O presidente do Fed, Jerome Powell, já havia sinalizado que o banco central precisaria de mais evidências de que a inflação está convergindo para a meta de 2% antes de flexibilizar a política monetária. Os novos dados reforçam essa visão. "Ainda não estamos confiantes de que a inflação está em trajetória sustentável de queda", declarou Powell em discurso recente.
Analistas do Morgan Stanley projetam que o Fed poderá elevar os juros para 5,75% ao ano até o fim de 2026, contra os atuais 5,50%. "O mercado está se ajustando a uma realidade de juros mais altos por mais tempo", afirmou a economista-chefe do banco, Ellen Zentner.



