A história do vinho no Brasil: imigração, ferrovias e dupla poda
Vinhedos no Brasil: imigração, trilhos e dupla poda

A história da produção de vinhos no Brasil é marcada por trilhos de ferro, imigração e adaptação ao território. Após tentativas frustradas de cultivo na Baixada Santista no século XVI, a viticultura ganhou força entre os séculos XIX e XX, quando imigrantes portugueses, italianos e espanhóis avançaram para o interior de São Paulo impulsionados pela expansão das ferrovias. Durante esta semana, a EPTV Sul de Minas, afiliada Rede Globo, exibe a série especial "Cartas de Vinho", que mostra como o legado desses imigrantes influencia a vitivinicultura atual.

Os primeiros polos: Jundiaí e São Roque

As primeiras produções comerciais se concentraram nas regiões de Jundiaí e São Roque, onde os primeiros barris de vinho do país começaram a ser comercializados. Na época, Vinhedo ainda era um distrito de Jundiaí, conhecido como Distrito de Paz de Rocinha. Com forte influência da imigração italiana, a cultura da uva se consolidou e levou à realização da primeira Festa da Uva, em 1948.

"Vinhedo começou com plantações de café, ainda na parte do distrito de Rocinha, e aí com a chegada dos migrantes italianos foi mudando essa parte da produção rural para as plantações de uva. Tanto é que esse símbolo é representado na bandeira do município com a nossa parreira. Então, Vinhedo fez essa transição dos cafezais para as parreiras e continuou. O progresso veio. Hoje, além das plantações, temos produção de vinhos locais", explicou o secretário de Turismo de Vinhedo, Renato Romanetto.

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A rota da uva entre São Paulo e Minas Gerais

À medida que o trem avançava para o interior, os imigrantes se espalhavam. O cultivo da uva ultrapassou as fronteiras paulistas e se fortaleceu entre São Paulo e Minas Gerais. Nesse contexto, Andradas se consolidou como um dos principais polos do setor e recebeu, em 2025, o título de capital mineira do vinho. Documentos históricos retratam a importância da atividade na cidade: uma revista de 1955 traz anúncios de vinícolas locais; outras publicações destacam a trajetória de José Francisco de Oliveira, pioneiro da cultura da uva na região. Há registros da participação do então governador Juscelino Kubitschek em uma Festa da Uva, com entrega de troféu.

"Tanto é que existem dados que existiam cerca de 70 vinícolas aqui em produção até os anos 1960, 1970. Então isso gera um grande negócio", afirmou o historiador Ricardo Luiz de Souza.

A tradição centenária da Fazenda Basso

Uma das propriedades que preservam essa tradição tem 124 anos de história. A Fazenda da família Basso guarda documentos da chegada dos primeiros integrantes ao Brasil. O passaporte utilizado na imigração traz o carimbo de 20 de novembro de 1888. "Quando eles desceram do navio, foram destinados para São João da Boa Vista. De 1898, ficaram uns 10 anos lá e começaram a descobrir Andradas. Porque São João é montanhosa, mas não tem a mesma topografia de Andradas, que trazia semelhança com a Itália", contou o vitivinicultor Rogério Basso.

A propriedade também guarda equipamentos centenários: tonéis, prensas, dornas e bombas manuais usadas para transferir vinho. No alto do galpão, permanece preservado o primeiro garrafão produzido pela vinícola, em 1967. "No início, vendiam tudo em barris de 100 litros a granel para São Paulo. Carregavam as carroças com cinco ou seis barris, puxadas por tração animal, de Andradas até Espírito Santo do Pinhal, em São Paulo. Lá, colocavam no trem e iam para São Paulo para distribuição", relatou Basso.

A revolução da dupla poda

Com o passar dos anos, os métodos de produção evoluíram. Um marco dessa transformação nasceu em Caldas, no Sul de Minas: a técnica da dupla poda, que impactou diretamente a produção de vinhos finos no país. A família do vitivinicultor José Procópio Stella acompanha essa trajetória há mais de um século. Segundo ele, as primeiras videiras foram plantadas por volta de 1910. "Em 1910 já plantaram as primeiras uvas e provavelmente em dois, três anos já estavam fazendo vinho para consumo próprio. A tecnologia mudou muito. Antigamente era uva, pisa, fermentação sem levedura, sem conservante, algo muito rústico", disse.

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A dupla poda ajudou a redefinir a viticultura brasileira e promoveu um movimento inverso ao da imigração: o conhecimento desenvolvido em Minas Gerais retornou para regiões paulistas, como Espírito Santo do Pinhal, ampliando as possibilidades de produção. "O clima favorecia. O solo, na maioria, são solos fáceis de trabalhar, bem drenados, de origem granito, em lugares mais altos, mas muito bons para a viticultura. E estava faltando a técnica, que aí entra essa dupla poda, para conseguirmos produzir na época certa", explicou o enólogo Cristian Sepúlveda.

A série "Cartas de Vinho" é exibida durante toda a semana no EPTV 1. Mais notícias da região no g1 Sul de Minas.