Imigrantes lotam estádios da Copa nos EUA com 99,6% de ocupação
Imigrantes lotam estádios da Copa nos EUA com 99,6%

A Copa do Mundo nos Estados Unidos está desmontando uma das principais dúvidas que cercavam o torneio antes da bola rolar: haveria público suficiente para encher os estádios em um país sem a tradição futebolística de outras sedes? Após as duas primeiras rodadas da fase de grupos, a resposta veio das arquibancadas. E ela está sendo dada, em grande parte, por imigrantes e seus descendentes.

Números recordes de público

Os 48 jogos disputados até a madrugada desta quarta-feira (24) levaram 3.072.164 torcedores aos estádios, média de 64.003 pessoas por partida e taxa de ocupação de 99,6%. Em 21 jogos, as arenas registraram ocupação total. O número impressiona ainda mais porque contraria as críticas feitas antes da competição em relação ao preço dos ingressos, que em partidas envolvendo seleções como Brasil, Estados Unidos e Portugal chegaram a custar até US$ 1.600.

Diversidade cultural nas ruas

Mas os números contam apenas parte da história. Circulando pelas cidades que recebem os jogos, chama atenção a diversidade cultural que tomou conta das ruas. Em Miami, por exemplo, ouvir espanhol é tão comum quanto ouvir inglês, algo que já fazia parte da rotina local e que se intensificou durante o Mundial. Em Nova York e Nova Jérsei, a sensação é semelhante: nos metrôs, trens e arredores dos estádios, predominam idiomas de todas as partes do mundo.

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O fenômeno é especialmente simbólico porque acontece em uma Copa realizada majoritariamente nos Estados Unidos, país que vive há anos um intenso debate sobre imigração. Nas arquibancadas, porém, são justamente os imigrantes e seus descendentes que ajudam a transformar o torneio em um sucesso de público.

Reconexão cultural de comunidades imigrantes

Conversando com comunidades de diferentes nacionalidades, é possível perceber como a Copa se tornou uma oportunidade de reconexão cultural. Muitos moradores que vivem nos Estados Unidos, inclusive alguns em situação migratória irregular, aproveitam o evento para celebrar suas origens. Os bairros tradicionalmente ocupados por determinadas nacionalidades ficam lotados em dias de jogo, especialmente por aqueles que não conseguiram comprar ingressos.

A presença latina tem sido uma das marcas do torneio. Mexicanos transformam cada partida em uma grande celebração. Colombianos lotaram as arquibancadas no duelo contra o Uzbequistão. Em Filadélfia, no jogo entre Brasil e Haiti, a quantidade de haitianos chamou atenção tanto quanto a presença brasileira.

Maiores públicos da Copa

Os rankings de público ajudam a ilustrar esse movimento. As duas maiores assistências da Copa até agora pertencem justamente a seleções com forte apoio de comunidades imigrantes. México 2 a 0 África do Sul e Uzbequistão 1 a 3 Colômbia receberam 80.824 torcedores cada. Logo atrás aparecem Brasil 1 a 1 Marrocos e Noruega 3 a 2 Senegal, ambos com 80.663 espectadores. França 3 a 1 Senegal teve 80.545 pessoas, enquanto Argentina 2 a 0 Áustria reuniu 70.649 torcedores.

O domínio de seleções latino-americanas entre os maiores públicos chama atenção dos próprios americanos. Jogos envolvendo Brasil, Argentina, Uruguai, Equador e Colômbia registraram presença maciça de torcedores, evidenciando o peso das comunidades desses países espalhadas pelos Estados Unidos.

Ocupação total cresce na segunda rodada

Na primeira rodada, 1.572.584 pessoas passaram pelas catracas. Na segunda, houve uma pequena queda para 1.499.580 espectadores, mas com um dado relevante: aumentou o número de partidas com lotação máxima. Foram 15 jogos com 100% de ocupação na segunda rodada, contra seis na primeira.

Estratégia de precificação dinâmica

Para Robson Carlo, sócio fundador da FutebolCard, o resultado reforça uma tendência cada vez mais presente no mercado esportivo. "Percebemos como uma tendência cada vez maior a adoção do preço dinâmico na venda de ingressos. Isso já vem ocorrendo em vários mercados", conta. "Apesar das reclamações diante dos preços elevados, a FIFA mostra que a estratégia da precificação dinâmica tem rendido bons frutos, garantindo também a grande presença do público nas arquibancadas ao chegar à marca de 1 milhão de torcedores nos estádios em tão pouco tempo de competição."

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Audiência recorde no streaming

O sucesso não ficou restrito aos estádios. A audiência também acompanhou o crescimento do interesse pelo torneio. Na transmissão de Brasil e Haiti, as plataformas de streaming registraram média de 13,7 pontos e 20,9% de participação entre os televisores ligados, superando o SBT. A CazéTV bateu recorde histórico do YouTube ao alcançar pico de 16,1 milhões de acessos simultâneos.

Para Moisés Assayag, sócio diretor da Channel Associados e especialista em finanças do futebol, os números reforçam o potencial econômico do evento. "Os recordes de audiência registrados no streaming ajudam a demonstrar que o valor econômico do futebol não está apenas dentro de campo. O alcance das transmissões tem impacto direto na atratividade do produto para patrocinadores, anunciantes e parceiros comerciais. Quando uma competição consegue mobilizar milhões de pessoas simultaneamente em diferentes plataformas, ela fortalece sua capacidade de gerar receitas e ampliar o valor de mercado de todo o ecossistema do futebol."

Mas, ao menos até aqui, a principal imagem da Copa não está nas telas. Está nas arquibancadas lotadas, tomadas por bandeiras, idiomas e culturas de diferentes partes do mundo. Em um Mundial disputado nos Estados Unidos, são justamente os imigrantes que estão ajudando a construir o ambiente mais vibrante da competição.