Um projeto de irrigação e fruticultura está transformando a realidade do Vão do Paranã, no nordeste de Goiás, região antes conhecida como 'corredor da miséria' devido à seca e à pobreza. Com investimento de R$ 23 milhões da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) e assistência técnica da Embrapa, 80 produtores rurais já foram beneficiados, dos quais cerca de 30 estão em fase de colheita. A meta é atender 250 famílias e irrigar 500 hectares.
Água: o divisor de águas
A agricultora Júlia Pereira de Andrade, do assentamento em Flores de Goiás, resume a mudança: 'Eu ajoelhei e pedi muito a Deus para que me desse água'. Ela passou dois anos sem água na propriedade, precisando buscar fora para banho e uso doméstico. 'No momento em que eu consegui perfurar esse poço, que eu vi água dentro da minha chácara, para mim foi o bem maior que Deus me deu', conta. Hoje, a água irriga pés de maracujá e manga que garantem renda à família.
A região, cercada pela Chapada dos Veadeiros e pela Serra Geral de Goiás, favorece o acúmulo de água subterrânea, facilitando a perfuração de poços artesianos. 'O produtor passa a ter uma fonte de renda ao longo de todo o ano', explica o pesquisador da Embrapa José Carlos Sousa.
Modelo de produção e produtividade
Cada agricultor selecionado recebe um kit de irrigação e assistência técnica para cultivar dois hectares: um de maracujá, que produz em cerca de seis meses, garantindo retorno rápido; e um de manga, que leva aproximadamente quatro anos para entrar em produção, mas pode permanecer produtiva por décadas. Em algumas propriedades, a produtividade do maracujá já alcança 30 toneladas por safra, o dobro da média nacional.
Júlia faturou cerca de R$ 15 mil em apenas dois meses com a venda de maracujá e abóbora. O dinheiro ajudou a custear despesas da casa e o financiamento do pomar. Em outras propriedades, a renda permitiu investimentos em energia solar, eletrodomésticos e melhorias na infraestrutura rural.
Jovens no campo e desafios de comercialização
O projeto também ajuda a conter o êxodo rural. Daniel Rodrigues, de 19 anos, formado em agropecuária, decidiu permanecer na propriedade da família após a implantação do sistema irrigado. 'Agora meu foco é conseguir plantar mais frutíferas para mim quando eu tiver uma idade mais avançada, não trabalhar tanto e ter uma renda ainda melhor', diz.
Apesar dos avanços, os produtores enfrentam dificuldades para comercializar as frutas, dependendo de atravessadores e convivendo com oscilações de preço. Para resolver o problema, agricultores criaram uma cooperativa e aguardam a conclusão de uma agroindústria financiada pelo governo estadual, que permitirá processar maracujá e manga em polpas, agregando valor.
Expansão para outros estados
O modelo já despertou interesse de outras regiões e deverá ser replicado em comunidades rurais da Bahia, Mato Grosso e Minas Gerais. Para Edgar Rodrigues, que hoje se define como um pequeno empresário rural, o futuro é promissor: 'Eu sonho alto. Ainda vou ver essas mangas sendo vendidas para os Estados Unidos e para onde mais for preciso.'



