Frigoríficos brasileiros estão exportando carne bovina em ritmo acelerado para aproveitar as cotas com tarifa reduzida para a China, antes que a sobretaxa de 55% entre em vigor sobre o volume excedente a 1,1 milhão de toneladas em 2026. A corrida pelo mercado chinês reduziu a oferta no mercado interno e elevou os preços, afetando até o churrasco da Copa do Mundo.
Exportações recordes pressionam oferta interna
De acordo com a consultoria Safras & Mercado, o Brasil deve atingir 98% da cota de exportação para a China até o final de junho, restando pouco espaço para embarques sem tarifa adicional em julho. A China respondeu por 51% do total de carne bovina exportada pelo Brasil entre janeiro e maio de 2026, com um crescimento de 24% nas vendas em relação ao mesmo período de 2025, segundo o Itaú BBA.
Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, explica: "A medida de salvaguarda da China subverteu a lógica do mercado. O Brasil, tipicamente, exporta mais no segundo semestre do que no primeiro. Esse ano vai exportar mais no primeiro do que no segundo."
Preços sobem para o consumidor
Em maio, todos os cortes de carne bovina registraram alta ao consumidor, com destaque para filé-mignon (+4,4%), picanha (+3,9%) e peito (+3%), conforme dados do IBGE. No acumulado de 2026, o peito subiu 13,6%, a picanha 9,3% e a capa de filé 11,8%.
Iglesias afirma que os preços têm sido mais influenciados pela redução da oferta do que pelo aumento da demanda interna: "Um dos grandes problemas que temos em 2026 é o baixo poder de compra do brasileiro e o alto nível de endividamento. Esse cenário tem sido agravado pelos jogos de apostas, que têm tirado muito dinheiro de circulação da economia, inclusive do consumo de produtos básicos e alimentos."
Alívio temporário, mas tendência de alta até o fim do ano
Com a redução das exportações para a China em julho, espera-se uma maior disponibilidade de carne no mercado interno, o que pode aliviar os preços no curto prazo. No entanto, a tendência é de nova alta até o final de 2026, impulsionada por fatores como o El Niño, que reduz a oferta de gado terminado a pasto, o aumento da demanda nos Estados Unidos e a retomada das compras chinesas.
"O problema está no último trimestre do ano, porque será um período de demanda muito aquecida no Brasil, nos EUA, além da retomada da demanda chinesa. Além disso, tem o El Niño, que tende a enxugar a oferta de gado terminado a pasto", destaca Iglesias. "Em linhas gerais, vamos ter um quadro de restrição de oferta com uma demanda muito aquecida. Ou seja, os preços tendem a subir bastante."
Impacto limitado do veto da União Europeia
A União Europeia anunciou em maio a exclusão do Brasil da lista de países autorizados a exportar carne bovina ao bloco, a partir de 3 de setembro, por não comprovar o cumprimento de exigências sobre o uso de substâncias na produção animal. Iglesias minimiza o impacto: "A Europa representa apenas 3,5% das exportações brasileiras de carne bovina. Já não é o cliente voraz que foi no passado. Ainda assim, o bloco tem uma importância simbólica por ser o que chamamos de 'mercado vitrine'. As decisões adotadas pelos europeus costumam servir de referência e acabam sendo replicadas por outros países."
Ele conclui: "Portanto, o impacto tende a ser mais um arranhão na imagem do Brasil do que propriamente uma perda relevante de volume exportado."



