O desmatamento no Cerrado brasileiro caiu 30% nos últimos dois anos, enquanto a produção agropecuária na região cresceu 12% no mesmo período, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Ministério da Agricultura. Esses números contrariam o argumento de que a conservação ambiental impede o desenvolvimento do agronegócio.
Dados do Inpe mostram queda no desmatamento
De acordo com o sistema Deter do Inpe, o desmatamento no Cerrado passou de 8.500 km² em 2024 para 5.950 km² em 2026, uma redução de 30%. Enquanto isso, o valor bruto da produção agropecuária no bioma saltou de R$ 120 bilhões para R$ 134 bilhões, um aumento de 11,7%. “Os números mostram que é possível produzir mais sem derrubar uma árvore sequer”, afirmou o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, em entrevista coletiva.
Agronegócio e preservação andam juntos
A ideia de que conservar florestas é um entrave para o agronegócio tem sido desmentida por evidências concretas. No Cerrado, a área plantada com soja cresceu 8% entre 2024 e 2026, mas 90% desse avanço ocorreu em áreas já abertas, como pastagens degradadas, segundo o estudo “Uso da Terra no Cerrado”, da Embrapa. “A produtividade aumentou com o uso de tecnologia, não com a expansão da fronteira agrícola”, destacou a pesquisadora da Embrapa, Ana Paula Santos.
Impacto positivo na economia e no clima
A redução do desmatamento no Cerrado evitou a emissão de aproximadamente 150 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, conforme cálculos do Observatório do Clima. Esse montante equivale a 5% das emissões anuais do Brasil. Além disso, a manutenção da vegetação nativa contribui para a regulação hídrica e a conservação da biodiversidade, beneficiando diretamente a agricultura, que depende de chuvas regulares.
O presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), João Martins, reconheceu que “o setor tem se adaptado às exigências ambientais e colhido os frutos, com acesso a mercados internacionais que valorizam produtos sustentáveis”. A União Europeia, por exemplo, aumentou em 20% as importações de soja brasileira certificada como livre de desmatamento nos últimos dois anos.
Desafios e perspectivas
Apesar dos avanços, o desmatamento ilegal ainda persiste em algumas regiões. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) aplicou R$ 2,3 bilhões em multas no Cerrado em 2025, um aumento de 15% em relação a 2024. “Precisamos de fiscalização contínua e incentivos para a recuperação de áreas degradadas”, defendeu o diretor de Políticas de Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente, André Lima.
Especialistas apontam que o caminho é integrar políticas de conservação com apoio técnico e financeiro aos produtores rurais. Programas como o “ABC+” (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono) já financiam práticas sustentáveis em mais de 10 milhões de hectares no Cerrado. “A realidade mostra que conservar florestas não só é compatível com o agronegócio, como também fortalece sua competitividade”, concluiu o ministro Fávaro.



