Em muitas fazendas do Sul de Minas, a produção de cafés especiais alterou práticas que atravessaram gerações. O momento da colheita passou a ser acompanhado com mais rigor. Talhões começaram a ser separados. O pós-colheita ganhou novos cuidados. Lotes que antes seguiam o mesmo destino passaram a receber tratamentos distintos até chegar aos armazéns. A mudança tem uma razão clara: a qualidade passou a representar uma oportunidade de agregar valor à produção.
Nos últimos anos, cafeicultores da região investem em técnicas capazes de elevar o padrão da bebida e atender a um mercado que busca atributos específicos de aroma, sabor, acidez e origem. O resultado aparece na valorização dos grãos e na abertura de novos canais de comercialização dentro e fora do Brasil.
Da produção convencional ao mercado premium
A transformação não acontece da noite para o dia. Produzir um café especial exige planejamento, conhecimento técnico e acompanhamento constante da lavoura. Questões como nutrição das plantas, manejo fitossanitário, ponto ideal de maturação dos frutos, colheita seletiva e secagem adequada passaram a ocupar espaço central na rotina de muitos cafeicultores.
Em diversas propriedades cooperadas da Cooxupé, esse processo mudou a forma de enxergar a atividade. O café deixou de ser avaliado apenas pelo volume produzido e passou a ser tratado como um produto capaz de gerar valor por suas características sensoriais e por sua origem.
A trajetória de produtores premiados em programas de qualidade ajuda a ilustrar essa evolução. O cooperado Virgolino Adriano Muniz, de Cabo Verde, conquistou em 2025 o primeiro lugar no Especialíssimo, programa de seleção de cafés especiais realizado pela Cooxupé e pela SMC Specialty Coffees. O lote alcançou 90,92 pontos na avaliação técnica, índice considerado de excelência no mercado internacional. A conquista foi resultado de um trabalho construído ao longo dos anos. Antes do título, o produtor já havia alcançado posições de destaque em outras edições do programa, acumulando experiência e aperfeiçoando os processos adotados na propriedade.
Qualidade que cruza fronteiras
O avanço dos cafés especiais também aumentou a presença dos produtores do Sul de Minas nos mercados mais exigentes do mundo. Lotes selecionados entre os cooperados da Cooxupé seguem para países como Japão, Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Coreia do Sul, Itália, Austrália, Canadá e diversos outros mercados consumidores. Muitos desses grãos são utilizados em blends especiais comercializados por torrefações internacionais e consumidos por apreciadores que valorizam qualidade, rastreabilidade e origem.
Parte dessa produção também chega ao consumidor brasileiro. Cafés selecionados pelo Especialíssimo fazem parte de linhas especiais da Torrefação Cooxupé. Segundo a indústria torrefadora da cooperativa, os blends são produzidos com lotes de alta pontuação sensorial, oriundos de propriedades que seguem critérios de qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade. A proposta é levar ao consumidor cafés com perfis distintos e identidade de origem.
Assistência técnica e incentivo à qualidade
O fortalecimento dos cafés especiais no Sul de Minas está associado a um trabalho contínuo de orientação técnica realizada junto aos produtores. Por meio da Cooxupé e da SMC Specialty Coffees, os cooperados recebem acompanhamento especializado voltado para as diferentes etapas da produção, desde o manejo da lavoura até os processos de pós-colheita.
De acordo com o vice-presidente da cooperativa, Osvaldo Bachião Filho, a busca por qualidade necessita de dedicação permanente e atenção aos detalhes. “Produzir café especial não é uma tarefa simples. Exige cuidados, atenção e muito capricho. O que observamos é um engajamento cada vez maior das famílias cooperadas em elevar continuamente a qualidade dos seus cafés”, afirma. Ele ainda destaca que o objetivo do trabalho desenvolvido pela Cooxupé é garantir que os grãos atendam aos padrões exigidos pelo mercado internacional e sejam produzidos segundo os critérios de sustentabilidade e boas práticas agrícolas.
Um retrato da evolução da cafeicultura
Criado em 2016, o Especialíssimo acompanha de perto a evolução da produção de cafés especiais na área de atuação da Cooxupé, que abrange o Cerrado mineiro, Matas de Minas, Média Mogiana do estado de São Paulo, além do Sul de Minas. O programa identifica lotes produzidos por cooperados que alcançam elevados padrões de qualidade e expande as oportunidades de comercialização desses cafés.
A cada safra, os resultados revelam o avanço técnico das propriedades participantes. Em 2025, os cafés mais bem classificados vieram de municípios como Cabo Verde, Poços de Caldas e Caldas, localidades que têm se destacado pela produção de grãos de alta qualidade. Além do reconhecimento aos cafeicultores, os lotes selecionados encontram espaço em mercados que remuneram atributos ligados à qualidade, à origem e à rastreabilidade.
“Os lotes selecionados são comercializados com valores diferenciados, estimulando a exportação e ampliando a presença do Brasil no mercado internacional, ao mesmo tempo em que valorizam a origem e o trabalho de cada família produtora”, afirma Bachião.
A consolidação dos cafés especiais no Sul de Minas mostra que a competitividade da cafeicultura passa cada vez mais pela diferenciação. Em um mercado global atento à origem, à rastreabilidade e aos atributos da bebida, a qualidade deixou de ser apenas um requisito técnico e se tornou parte da estratégia econômica das propriedades rurais.



