O avanço da população de javalis e javaporcos aumentou os prejuízos nas lavouras de milho de Mato Grosso do Sul e acendeu um alerta para os impactos ambientais causados pela espécie invasora, segundo proprietários rurais do estado. Produtores têm recorrido ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para o controle da espécie.
Perdas nas lavouras e danos ambientais
Além das perdas agrícolas, os animais invadem Áreas de Preservação Permanente (APPs), degradam nascentes e competem com a fauna nativa. Por isso, produtores rurais têm recorrido ao manejo autorizado como forma de controle.
O javali é um porco selvagem, originário da Europa, Ásia e norte da África e considerado uma espécie exótica invasora no Brasil. Já o javaporco é o cruzamento entre o javali e o porco doméstico, também tratado como animal invasor.
Impacto em Fátima do Sul
Em uma fazenda de Fátima do Sul, em Mato Grosso do Sul, as marcas da presença dos animais aparecem tanto nas lavouras quanto nas áreas de preservação. Pegadas encontradas próximas a uma nascente mostram que o grupo passou pelo local durante a noite. O produtor rural Pedro Scheffel estima que os javalis já provocaram perdas em cerca de 15% de uma área de 200 hectares de milho. Segundo ele, os animais atacam a plantação desde o início do ciclo do cultivo. “No começo eles comem as sementes. Depois, quando o milho cresce, derrubam as reboleiras. Essas perdas tiraram praticamente a lucratividade da lavoura”, afirmou.
Além dos danos à produção, os javalis comprometem o equilíbrio ambiental. Eles revolvem o solo em busca de alimento, destroem a vegetação de áreas protegidas e podem consumir ovos, pequenos animais e espécies nativas.
Aumento populacional significativo
O manejador Sérgio Roque afirma que a presença dos animais aumentou de forma significativa na propriedade onde atua. “Aqui eu acredito que chegou a triplicar. A área é de nascentes e eles causam danos a essas nascentes”, disse.
Segundo a analista ambiental do Ibama em Mato Grosso do Sul, Fabiane Gonçalves, o javali é uma espécie exótica e, por isso, pode ser controlado por meio do manejo previsto na legislação. “O javali não é um animal nativo do Brasil. Ele causa impactos severos à agropecuária, à vegetação, às nascentes e ainda compete com espécies da fauna brasileira”, explicou.
Regras para o abate legal
Ela explica que qualquer pessoa interessada em realizar o manejo precisa estar inscrita no Cadastro Técnico Federal do Ibama e solicitar autorização por meio do Sistema de Manejo de Fauna (CIMAF). Para quem utiliza armas de fogo, a regularização também depende da Polícia Federal.
Apesar da autorização para o controle populacional, o Ibama ressalta que o manejo deve seguir as regras estabelecidas por instrução normativa, respeitando o bem-estar animal e sem maus-tratos. O órgão também reforça que apenas javalis e javaporcos podem ser abatidos. Segundo a autarquia, catetos, queixadas e outros animais silvestres brasileiros não podem ser caçados, pois a captura dessas espécies configura infração e crime ambiental.
Números do abate
Conforme o Ibama, cerca de 15 mil javalis foram abatidos legalmente no último ano em todo o país. O órgão, no entanto, acredita que o número real seja maior, já que muitos manejadores deixam de informar todos os animais abatidos nos relatórios obrigatórios.
O Ibama autoriza a caça de javalis desde 2013 para controle da espécie. O javali (Sus scrofa) é uma espécie exótica invasora reconhecida pelo próprio Ibama como nociva à fauna, à flora, à produção agropecuária e à saúde pública. Por esse motivo, a legislação brasileira permite seu controle populacional por meio do abate, desde que observados os requisitos legais estabelecidos pelos órgãos competentes.
Qualquer pessoa pode se cadastrar para realizar o controle de javalis, desde que esteja regularmente inscrita no Cadastro Técnico Federal (CTF) do Ibama e não possua pendências administrativas junto ao órgão. Após esse cadastro, o interessado pode se registrar na atividade de manejo de fauna exótica invasora e, então, acessar o Simaf para solicitar a autorização.
A criação de javalis em cativeiro é proibida no Brasil. A identificação de criadouros irregulares ou de atividades realizadas em desacordo com as autorizações emitidas pode resultar na adoção das medidas administrativas e legais cabíveis pelos órgãos fiscalizadores.



