Uma idosa de 62 anos, mulher, negra e analfabeta, foi resgatada em junho de 2025 em situação análoga à escravidão em um condomínio de luxo em Eusébio, no Ceará. Ela trabalhava para a mesma família desde os sete anos de idade, sem receber salário, folgas ou férias. O caso, que teve repercussão nacional, é analisado por especialistas como um exemplo de como o trabalho doméstico no Brasil ainda carrega marcas do racismo e da herança escravocrata.
Perfil da vítima e a naturalização da exploração
A vítima limpava a casa, cozinhava e cuidava das crianças. Nunca aprendeu a ler nem a escrever, nunca namorou e não teve vida pessoal. Segundo a antropóloga Izabel Accioly, ela "teve a subjetividade roubada". A família a chamava de "mãe pretinha" ou "vó pretinha", tratamento que, para o historiador Arilson dos Santos Gomes, da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), revela como a vítima era vista: como alguém inferior, mas tratada com afeto para mascarar a exploração.
Raízes históricas do racismo no trabalho doméstico
Gomes explica que a relação entre trabalho doméstico e racismo tem origem no pós-abolição, quando os negros libertos não foram integrados à sociedade e foram empurrados para trabalhos precários. "O vínculo do trabalho doméstico com o racismo é um vínculo histórico, porque quem trabalhou durante a construção do Brasil foram os escravizados", afirma. Ele destaca que a exploração dentro de casa é mais difícil de perceber, e que a ideia de que a trabalhadora é "da família" ajuda a esconder a exploração, baseada no mito da democracia racial.
Estrutura de violência e a senzala moderna
Accioly aponta que o caso não é isolado, mas estrutural. No Ceará, outra idosa de 61 anos foi resgatada em 2025 no Crato, após quase 30 anos sem contato com a família, sem salário, folgas ou férias. A antropóloga reflete sobre a palavra "doméstica": "É bem típico do período colonial, em que tinham trabalhadores que ficavam fora da casa, e os domésticos, do lar. Era aquela pessoa que você 'domestica' no sentido de amansar". Ela compara a senzala ao quarto de empregada: "A senzala foi substituída pelo quarto de empregada. A corrente virou a alienação. O cárcere tem agora uma aparência de afeto. O racismo se atualiza para se manter".
Direitos trabalhistas e a realidade do setor
O Brasil tem mais de 6 milhões de empregados domésticos, segundo a Pnad de dezembro de 2023. A PEC das Domésticas de 2013 ampliou direitos como jornada de 8 horas, horas extras, FGTS e seguro-desemprego. No entanto, a informalidade ainda é alta: 75% das trabalhadoras não têm carteira assinada, e apenas 36% contribuem para a Previdência. No Ceará, são 198 mil trabalhadores domésticos, mas só 27 mil com carteira assinada.
Medidas de reparação e o futuro da vítima
Após o resgate, a idosa foi afastada das atividades e recebe acompanhamento da Secretaria dos Direitos Humanos do Ceará. Os empregadores firmaram um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho, comprometendo-se a pagar R$ 50 mil em verbas rescisórias, adquirir um imóvel para a trabalhadora e regularizar os recolhimentos previdenciários. Em nota, a família nega as acusações e afirma que a relação era de "convivência, cuidado e afeto".
Como denunciar
Denúncias de trabalho análogo à escravidão podem ser feitas pelo Disque 100 (gratuito e anônimo) ou pelo Sistema Ipê (ipe.sit.trabalho.gov.br). O caso da idosa de 62 anos foi descoberto por meio do Disque 100.



